Tem sido a principal figura da vacinação contra a covid-19 em Portugal. O vice-almirante Gouveia e Melo assumiu a coordenação da task-force no início de 2021 e desde então já muita tinta correu. 

Uma figura pública que não queria ser, acabou por ganhar fama pela forma como tem abordado as polémicas em torno do plano de vacinação: homem de poucas palavras, mas que vai direito ao assunto.

Gouveia e Melo tem vindo a surpreender a opinião pública com várias declarações. Comecemos pela mais recente:

"O negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos"

À chegada ao centro de vacinação de Odivelas, no passado fim de semana, o vice-almirante Gouveia e Melo foi recebido com apupos por um grupo de manifestantes que não concordam a vacinação contra a covid-19. O responsável não se deixou intimidar pelos gritos de "assassino", respondendo:

O negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos. Morreram mais de 18 mil pessoas em resultado desta pandemia. A pandemia é que é a verdadeira assassina e eu estou aqui para contribuir, pelo contrário, para esclarecer as pessoas."

"Infelizmente para mim, tenho de estar permanentemente na televisão"

Depois de admitir que os “ziguezagues” que se verificaram com algumas vacinas, como o caso da AstraZeneca, “retiram confiança na população no processo de vacinação”, Gouveia e Melo frisou que a task force tem desenvolvido um trabalho de “comunicar, planear e organizar o processo” de vacinação.

Eu, que sou um submarinista e que não gosto de andar à superfície - gosto de andar debaixo de água escondido -, agora, infelizmente para mim, tenho de estar permanentemente na televisão a explicar coisas e a comunicar”, disse.

"Nos exercícios da NATO ataco os ingleses, porque lhes quero tirar o snobismo. Não gosto de snobes"

Numa entrevista confessional ao “Nascer do Sol”, o vice-almirante assumiu um lado competitivo que não gosta de perder.

“Nos exercícios da NATO sou o mais sanguinário possível. Se entra um inglês no exercício, é o primeiro que ataco porque lhes quero tirar o snobismo. Não gosto de snobes. Aos franceses também não perdoo, porque são chauvinistas, e os alemães também não deixo escapar porque tenho família judaica (risos).” 

Gouveia e Melo acrescentaria ao Expresso que, na verdade, estava a ironizar e que preferia começar a atacar os britânicos sobretudo por serem "os mais difíceis" e por terem "os melhores submarinos"

"Uso camuflado porque para mim isto é uma guerra"

O coordenador da task force para a vacinação defende que a pandemia é um combate que “não se pode perder”, que para si é mesmo “uma guerra” e, por isso, usa o camuflado.

Essa é a razão por que Gouveia e Melo descartou o seu uniforme da Marinha, e decidiu usar sempre o uniforme de combate, o camuflado operacional, o único que é comum aos três ramos das Forças Armadas, além do significado simbólico de que se reveste para a instituição e a população em geral.

[O uniforme] quer dizer que não estou sozinho e sou ajudado pelos três ramos das Forças Armadas, tenho pessoas a trabalhar comigo da Marinha, do Exército e da Força Aérea”, disse.

E explicitou: “É muito importante passar a mensagem que não é uma única pessoa, mas que são as Forças Armadas que estão a ajudar ao processo. Eu sou, digamos, a ‘ponta do iceberg’”.

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"Tinha acesso à vacina e recusei"

Outra das citações mais marcantes do vice-almirante aconteceu quando o próprio assumiu ter sido pressionado a vacinar-se. Gouveia e Melo, de 60 anos, podia ter sido vacinado logo no início da campanha por ser militar, mas, devido à escassez de vacinas na altura, optou por adiar o processo e mais do que uma vez.

Fui vacinado depois de passar a minha idade. Enquanto militar tinha acesso à vacina e recusei esse acesso. Depois, já tinham entrado duas faixas abaixo da minha idade e disseram-me que era melhor vacinar-me porque ainda acabava por dar o exemplo negativo. Fui vacinado quando a faixa dos 60 anos estava praticamente fechada"

Gouveia e Melo contou, ainda, que, aquando da toma da segunda dose, nem se sentou, porque "estava a tratar de outros assuntos".

Todos seremos vacinados...independentemente do método 

Gouveia e Melo ainda estava a meio do corredor quando percebeu a razão da demora na inoculação de um centro de vacinação. “Quando a pessoa chega à cabine de vacinação é para ser inoculada e sair, não é para estar a conversar, a tirar dúvidas. Isso tem de ser feito antes.” Mas a enfermeira retorquiu: “Há pessoas muito ansiosas”. 

O plano é “fazer um corredor para as bancadas (que existem no polidesportivo convertido em centro de vacinação) e ai explicar-lhes que só têm uma hipótese: serem vacinados, porque vamos todos sê-lo, e à força". 

Uns vão ter a vacina artificial, dada aqui e controlada, e outros a vacina natural, lá fora e com 14 dias de quarentena garantidos, com risco de hospitalização e até de morte".

“Colinho dá a mãe em casa”

No seguimento da declaração anterior, o vice-almirante apontou que "Se ainda assim ‘estiverem a tremer’, é dizer-lhes o que se diz aos militares: colinho dá a mãe em casa. Isto é um centro de vacinação, não de psicoterapia”, disse pragmático.

Vacinação de imigrantes? "Não podemos ser egoístas"

O coordenador defendeu a necessidade de vacinar toda a gente que vive em Portugal, inclusive os imigrantes não legalizados, e apelou à comunidade para não ser “egoísta”.

Nós não podemos deixar pessoas que vivem em território nacional sem vacinação. Não podemos ser egoístas. A comunidade não pode ser egoísta. Essas pessoas sem vacinação vão atacar a própria comunidade porque são propagadoras de vírus”

"As férias são importantes, mas mais importante é não dar férias ao vírus"

Gouveia e Melo apelou a todos os jovens que se vacinem, mesmo que isso implique interromper as férias.

"As férias são importantes, mas mais importante é não dar férias ao vírus. Temos de por o vírus ao sol, temos de lhe tirar água. Não pode ter poças por onde progredir, e isso é um combate de todos nós", disse, lembrando os profissionais de saúde que "não têm férias".