Foi há mais de um ano e ainda está tudo por reconstruir. Em Lajeosa do Dão, concelho de Tondela, o olhar é de quem perdeu tudo nos incêndios de 15 de outubro de 2017 e continua perdido. Rui Dias faz parte dos 25 mil agricultores que pediram ajuda ao Governo.

Este homem candidatou-se aos fundos que previam a cobertura de prejuízos acima dos 5 mil euros. Não fazia ideia que os cortes eram grandes. Se pegarmos na relação de prejuízos desta família e analisarmos o que foi validado, comprovamos que a situação é insustentável.

Rui candidatou-se a comprar, para um dos terrenos que tinha, 25 oliveiras que arderam, num total de investimento de 198 euros. Desse valor, o Estado apenas validou 100 euros.  Feitas as contas, cada oliveira irá custar apenas 4 euros.

Documentos a que a TVI teve acesso mostram que muitos outros agricultores estão na mesma situação ou pior.

O que Rui também não sabia é que teria primeiro que investir e só depois ser reembolsado.

Já Nuno Tavares Pereira perdeu mais de 400 colmeias, o sustento de uma vida, hipotecado agora com um empréstimo que não tem como pagar.

Dificilmente irá conseguir recuperar o que já investiu. Candidatou-se aos apoios com cerca de 48 mil euros de prejuízo. Aprovaram 36 mil.

  Numa única quinta em Vinhal, concelho de Tondela, morreram mais de 100 animais. Às imagens que não se esquecem, juntam-se contas para pagar e muitas faturas para serem reembolsadas. Os prejuízos ultrapassaram os 48 mil euros. O Governo irá pagar 40 mil.

Negligência por parte de técnicos do Estado 

As vítimas que fizeram a lista de prejuízos ainda dentro do prazo, no ano passado, foram apanhadas pelo meio com a alteração dos procedimentos nas candidaturas, anulando todos os os processos já apresentados.

Milhares de agricultores que tinham feito a declaração de prejuízos que, numa fase inicial previa apoios para as candidaturas simplificadas até 1.053 euros, viram-se confrontados com a alteração, em novembro, de que o apoio passaria a ser até 5.000 euros.

Aí surgiu um dos maiores problemas: os agricultores passaram a ser obrigados a atualizar os dados dos prejuízos, tendo que inseri-los no portal; imprimir o documento e validá-lo novamente na autarquia local. Milhares ficaram de fora. Só tiveram nove dias úteis como prazo para tratarem de tudo.

O Governo responde com prazos que terminaram, mesmo nos casos em que tenha havido incompetência por parte dos técnicos do Estado.

Documentos a que a TVI teve acesso mostram negligência no preenchimento das candidaturas com listagens de prejuízos preenchidas a zero.

Os casos multiplicam-se, mas ninguém assume responsabilidades.