Comece-se pelo fim, por aquele caloroso e sincero abraço trocado por José Antonio Camacho e José Mourinho, no final dos 90 minutos, enquanto os seus jogadores lhes seguiam o exemplo no centro do relvado. Comece-se por aí, para resumir o que de mais importante ficou do clássico da Luz, este domingo. Se o empate (1-1), entre Benfica e F.C. Porto, deixa (quase) tudo na mesma na classificação da Superliga e na hierarquia do campeonato, pode muito bem ser que nem tudo tenha ficado na mesma no futebol português.

Depois de semanas irrespiráveis, tamanha a quantidade de disparates atirada para o ar, de todas as direcções, o clássico da Luz foi apenas um jogo. Sem guerras, sem polémicas mesquinhas, sem baixezas de carácter. Um jogo nem sempre brilhante, é verdade, mas saudavelmente sentenciado por momentos de grande qualidade e marcado, desde o princípio da semana, por dois conceitos-chave: respeito e dignidade.

Se a importância do jogo, o desfecho e até a marcha do marcador repetem o cenário do Sporting-F.C. Porto de há duas semanas, não há comparação possível entre os ambientes vividos antes, durante e depois e a mensagem transmitida para o exterior. Este domingo, na Luz, o futebol voltou a ser um caso de paixão e talento, e não de tribunal. Até quando?

Vantagem do dragão no jogo das diferenças

Quanto à crónica do jogo, passe-se rapidamente por cima de 20 minutos iniciais sem história, com os guarda-redes como figurantes, e que serviram apenas para perceber que os encaixes tácticos - respeitosos - davam pouco espaço à explosão dos talentos. Com o F.C. Porto a dar uma ideia de maior consistência colectiva, e o Benfica, apesar dos esforços de Miguel, Simão e Sokota, a não conseguir traduzir em campo o suplemento de alma que lhe vinha das bancadas, o encontro parecia condenado a decidir-se por coisas pequenas.

A primeira aconteceu ao 20 minutos, quando após um canto de Simão, Zahovic, ao segundo poste, se libertou da marcação de Costinha para, por duas vezes, falhar o tempo de remate. Foi o primeiro frisson, e foi também o primeiro pretexto para jogar às diferenças: dez minutos depois, Deco bateu um canto da mesma forma, Costinha iludiu a marcação de Tiago da mesma forma, mas concluiu com a eficácia que faz dele um dos mais perigosos finalizadores de cabeça do futebol português.

O 0-1 no marcador era diferença excessiva para o equilíbrio existente, mas era também a confirmação de que em Portugal nenhuma equipa como o F.C. Porto sabe ser tão competente na exploração de pequenos erros. E, mesmo a léguas da equipa que há um ano sentenciou o título, sem margem para reparos, em Alvalade e na Luz, a equipa de José Mourinho poderia mesmo, à beira do intervalo, acentuar ainda mais as diferenças, quando um passe luminoso de Deco permitiu a Maciel ultrapassar Armando. O corte em esforço de Ricardo Rocha impediu a injustiça de um ponto final quando ainda havia 45 minutos por jogar.

Benfica de alma lavada

Na última quarta-feira, frente ao Nacional, o Benfica, mesmo jogando quase sempre mal, deu sinais importantes para o clássico. O mais óbvio, o reforço da saúde psicológica com aqueles golos ao cair do pano. Talvez por isso, Camacho não tenha mexido na equipa, mesmo perante as exibições pouco conseguidas de Geovanni e Tiago. Teve razão o técnico: a equipa encontrou nas cabinas o mesmo espírito dos dez minutos finais frente ao Nacional, e reentrou em campo de alma lavada.

Em apenas dois minutos, Simão (ao lado) e Geovanni (à trave) encontraram espaços para dar os primeiros sustos a Vítor Baía. E, cinco minutos depois, mais uma boa iniciativa de Miguel foi prolongada por uma abertura de Geovanni que sobrevoou Sokota e encontrou Simão solto na meia esquerda. O extremo cortou para dentro, ultrapassou Paulo Ferreira e Jorge Costa e concluiu com classe, marcando um grande golo. Um golo digno de um clássico, que mudava completamente o sentido do jogo.

Empolgado, o Benfica esteve perto da reviravolta logo depois (Ricardo Rocha falhou o desvio ao segundo poste a um livre de Petit) e foram precisos 17 minutos de domínio encarnado para um remate de Pedro Mendes às malhas laterais lembrar que o F.C. Porto ainda existia em termos ofensivos.

Saída de Sokota esvazia a maré

Três minutos depois, Geovanni e Sokota trabalharam para dar a Zahovic uma oportunidade de ouro, mas o remate do esloveno saiu ao lado. Aos 68 minutos, Petit dava ainda mais expressão ao vendaval encarnado, ganhando espaço para um remate à entrada da área que encontrou Baía no caminho. A balança, que na primeira parte estivera um pouco inclinada para o lado azul e branca, estava agora claramente do outro lado. Mas a lesão de Sokota (que mesmo sem espaços de remate estava a revelar-se essencial na estratégia de Camacho, ganhando e segurando muitas bolas para o apoio dos companheiros) veio esvaziar a maré encarnada.

As entradas quase simultâneas de Nuno Gomes (menos solto que Sokota) e Jankauskas (mais sólido que McCarthy) tiveram efeitos opostos nas duas equipas, e o F.C. Porto conseguiu encontrar algum espaço para respirar, sem jamais voltar a controlar o jogo como o fizera no primeiro tempo. Voltando a não ser capaz de repetir o ponto de exclamação com que encerraram a discussão de há um ano, o dragão conseguia sair do segundo clássico em Lisboa com o essencial assegurado. O jogo já cheirava a empate, um desfecho que, face às circunstâncias, foi sem dúvida interessante para a equipa de Mourinho, mais encostada às cordas.

À excepção de um erro aos 86 minutos, que ia permitindo a Jankauskas um lance de muito perigo (voltou atrás e, com ajuda do auxiliar, emendou a mão) foi muito bom o trabalho de João Ferreira, que conseguiu a proeza de encerrar um clássico com onze para cada lado. Muito mérito para os jogadores, sempre leais na luta, mas mérito também para o critério largo e sensato que soube manter.

Nuno Madureira