A artista plástica Lourdes Castro, uma das fundadoras do grupo artístico e da revista "KWY", em França, morreu este sábado, no Funchal, aos 91 anos, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

A artista madeirense foi galardoada com a Medalha de Mérito da Cultura em 2020 pelo "contributo incontestável" para a cultura portuguesa.

Nascida em 1930 no Funchal, ilha da Madeira, Lourdes Castro estudou pintura na Escola Superior de Belas Artes, em Lisboa, e viveu na Alemanha e em França, onde foi uma das fundadoras da revista “KWY”, um título composto por três letras que não existiam, na época, no alfabeto português.

Altas figuras do Estado lamentam morte

O Presidente da República, o presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro manifestaram o seu pesar pela morte da artista plástica madeirense, Lourdes Castro.

Numa nota publicada no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa classificou Lourdes Castro - que condecorou em junho passado - como “uma das mais inconfundíveis artistas portuguesas”.

“Nascida na Madeira, Lourdes Castro estudou Belas-Artes em Lisboa, casou-se com René Bertholo e viveu em Munique, Berlim e Paris. Em 1958, fundou a revista KWY, e essas três letras do alfabeto, pouco habituais em português, anunciavam todo um programa cosmopolita, desalinhado e moderno”, recorda a nota de Belém.

O presidente da Assembleia da República manifestou o seu “sentido pesar” pelo falecimento de Lourdes Castro, aos 91 anos, no Funchal.

“Nome incontornável da pintura portuguesa contemporânea, Lourdes Castro deixa uma vasta obra, marcada inicialmente pela abstração e pelo novo realismo e que conhece, no dealbar da década de 1960, o tema da sua eleição: a sombra”, destaca a nota de Ferro Rodrigues.

O presidente do parlamento recorda ainda as “inúmeras exposições” em que participou ou que lhe foram dedicadas, como a retrospetiva "Além da Sombra", promovida em 1992 pela Fundação Calouste Gulbenkian, ou outra acolhida na Assembleia da República em 2018 ("Arte, Resistência e Cidadania"), no âmbito das Comemorações do 25 de Abril de 1974 e dos 40 Anos da Bienal de Cerveira, “na qual uma das suas obras assumiu lugar central no edifício-sede do Parlamento”.

“Em meu nome e no da Assembleia da República, endereço à sua família e amigos as mais sinceras condolências”, acrescenta o texto de Ferro Rodrigues.

Já o primeiro-ministro, António Costa, manifestou “enorme tristeza” pela morte da artista plástica madeirense, que recordou como uma “artista singular e surpreendente”.

“Artista singular e surpreendente, Lourdes Castro sempre se guiou por uma liberdade jovial e pela busca de uma arte da vida. Em 2019, inaugurámos nos jardins de São Bento um painel de azulejos figurando uma das suas sombras projetadas. A sua morte deixa uma enorme tristeza”, refere o primeiro-ministro, numa mensagem na sua conta da rede social Twitter.

Lourdes Castro iniciou o seu percurso expositivo com uma coletiva ao lado de José Escada, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, em 1954.

Casou com René Bertholo, em 1957, e, depois de uma estada em Munique, na Alemanha, partiram ambos para Paris, no final do inverno de 1957, fixando aí residência.

Em 1958, foi-lhe atribuída uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, o que coincidiu e ajudou, em parte, o início de um projeto em comum – a publicação de uma revista, impressa à mão, em serigrafia, a que chamaram “KWY” (1958-1963), de título composto por três letras que não existiam, na época, no alfabeto português.

Esta escolha, segundo o grupo de artistas, exprimia, com ironia, a necessidade de exploração fora desse ambiente cultural originário, em Portugal.

No seu conteúdo predominava uma pintura abstrata de raiz informalista, à qual se seguiria um lento mas progressivo regresso à neo-figuração.

Em torno da revista, que se materializou em 12 números, formou-se o grupo homónimo de artistas que incluía também Jan Voss, Christo Javacheff, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, José Escada e João Vieira.

O coletivo apresentou-se em quatro exposições. A primeira, em Lisboa, ocorreu em 1960, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA).

Inicialmente associada à abstração - corrente a que todos os artistas desse grupo estariam ligados, em Paris, onde a artista acabou por viver durante 25 anos - a obra de Lourdes Castro caminhou para o novo realismo, produzindo colagens e 'assemblages' de objetos obsoletos do quotidiano, pintados com tinta de alumínio.

Nessa década descobre, a partir da serigrafia, um tema de eleição – a sombra -, que veio a marcar profundamente a sua obra.

De tal forma a sombra teve impacto no seu pensamento e sentimento artístico, que começou a reunir, em 1965, todas as referências imagéticas e literárias sobre o tema, em dezenas de volumes a que chamou “Álbum de Família”.

O seu processo de experimentação sobre o tema iria também desenrolar-se noutros suportes não tradicionais, nomeadamente o plexiglas, que utilizou desde 1964, e lençóis de linho translúcido, onde bordava os contornos das suas próprias sombras deitadas, presentes na sua obra desde 1968.

Lourdes Castro experimentou também o poder performativo da sombra em movimento, no seu “Teatro de Sombras”, já ensaiado antes, em 1966, no espetáculo de Graziela Martinez, em Paris, continuando nos anos seguintes a desenvolver essaes 'performances' em estreita colaboração com o segundo marido, Manuel Zimbro (1940-2003), que conheceu em 1972.

Criou ainda espetáculos como “As Cinco Estações” (1976) ou “Linha do Horizonte (1981), apresentados em várias cidades da Europa e da América Latina.

Essa parceria na vida e na arte, que duraria mais de três décadas, foi evocada e celebrada na exposição de caráter antológico: "Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: a Luz da Sombra", realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, em 2010.

Nesta grande exposição foram reunidas cerca de quinhentas obras, desde desenhos, lençóis bordados com figuras deitadas e as originais silhuetas em tela e em plexiglas que marcam a obra da artista madeirense.

Também aí foi apresentada ao público, pela primeira vez, a documentação dos espetáculos/performances sobre o "Teatro de Sombras", que Lourdes de Castro levou a vários museus e teatros europeus e latino-americanos, na década de 1970.

O desenho ficou também presente numa série intitulada "Sombras à volta de um centro", realizada em dois períodos, em Paris (1980) e na Madeira 1984/87, sendo igualmente apresentada na exposição de 2010, em Serralves.

A artista voltou para a Madeira em 1983, com Manuel Zimbro, e desde o início dessa década desenvolveu a série "Sombras à Volta de um Centro" que ambos prolongaram, recrutando "objetos" da natureza, o sentido reflexivo sobre a temporalidade e o destino da vida, numa interpretação da tradição cultural romântica.

Já no início dos anos 1990, Lourdes Castro produziu também obras em tapeçaria e azulejo.

A Fundação Calouste Gulbenkian dedicou-lhe, em 1992, uma retrospetiva, intitulada "Além da Sombra".

A artista realizou uma instalação com Francisco Tropa, no âmbito da representação portuguesa na Bienal de São Paulo de 1998, intitulada "Peça", que consistia num imenso pano branco pousado sobre uma longa mesa fortemente iluminada, de modo a sublinhar os vincos das dobras dessa cobertura.

Em 2000, Lourdes Castro recebeu o Grande Prémio EDP Arte, e, em 2004, foi reconhecida com o Prémio Celpa/Vieira da Silva – Artes Plásticas Consagração.

Foi distinguida na edição de 2010 dos prémios da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), com o arquiteto Francisco Castro Rodrigues.

Em 2015, a artista recebeu, na Capela do Rato, em Lisboa, o Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes, atribuído pela Igreja Católica para realçar uma figura com percurso de humanismo e experiência cristã.

Nesse mesmo ano apresentou, na Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição "Lourdes Castro - todos os livros", com meia centena dos seus livros de artista, uma parte significativa da sua obra.

Em 2016 mostrou, na Culturgest, em Lisboa, o conjunto de 36 cadernos que tinha vindo a preencher, desde 1963, com imagens e textos, a que chamou "Álbum de Família".

Na Fundação Carmona e Costa, também em Lisboa, Lourdes Castro apresentou, já em 2019, uma exposição com um grande núcleo de obras suas inéditas e de Manuel Zimbro, todas elas sob o tema da vida do casal na Quinta do Monte, no Funchal.

É uma das artistas em destaque na mostra "Tudo o que eu quero. Artistas Portuguesas de 1900 a 2020", com curadoria de Helena de Freitas e Bruno Marchand, que esteve patente na Gulbenkian, entre junho e agosto de 2021, e que irá ficar patente de março a setembro deste ano, no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré, em Tours, integrada na Temporada Cruzada Portugal França.

Está também representada nas exposições "Territórios desconhecidos: a criatividade das Mulheres na cerâmica moderna e contemporânea portuguesa (1950-2020)", no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, e na mostra "Modus Operandi", patente em Serralves.

O Governo português atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural em 2020, pelo seu "contributo incontestável para a cultura portuguesa".

/ AG