O Benfica garantiu esta quarta-feira a presença nas meias-finais da Taça. A vitória por 2-1 sobre o Nacional teve um sabor de outros tempos. Não apenas pelo insólito de um jogo às três da tarde, num dia de semana, mas também pelo renascimento de uma expressão (cinco minutos à Benfica) que os últimos anos tinham tornado obsoleta.

Os adeptos das águias - equipadas de branco, outra piscadela de olho ao passado - andavam mais habituados a ver a sua equipa perder pontos e jogos nos últimos instantes, não a conquistá-los. Mas, por uma vez, as coisas voltaram atrás no tempo. De holofotes apagados, uma estreia esta época, o Benfica trouxe pela primeira vez ao novo estádio uma coisa indefinível a que à falta de melhor se costuma chamar mística.

Pelo caminho ficou um Nacional que, durante 70 minutos (descontam-se os primeiros 15 e os últimos 5) soube dominar o jogo nos aspectos-chave. A equipa de Casimiro Mior, com fama e proveito de ter duas caras - consoante o jogo é em casa ou fora - apresentou o seu rosto mais convincente na nova Luz e ainda deve estar a tentar perceber o que terá falhado para ir direitinha do Paraíso ao Inferno sem passagem pelo purgatório.

Camacho e os tiros no pé

O jogo começou embalado por duas opções falhadas de Camacho: o regresso de Geovanni ao onze limitou os argumentos ofensivos da equipa a Simão e Sokota; a titularidade de Fernando Aguiar foi um rotundo fiasco, que se esgotou após um primeiro quarto de hora em que a presença física do número 16 ainda simulou alguma utilidade. Tiago só tem a ganhar se iniciar as suas movimentações em terrenos mais recuados, e a presença de Fernando Aguiar como primeiro elemento de construção ofensiva é garantia de meia dúzia de passes sem sentido e outros tantos que só chegam ao destino por atalhos misteriosos.

Assim, o primeiro Benfica durou 15 minutos de pressão intensa e fogo de vista, que serviram para encostar o Nacional à área mas nunca descobriram os caminhos para a baliza de Hilário. Passado esse tempo, a equipa de Casimiro Mior começou a tomar o gosto à bola e a aproveitar um sistema de jogo com três homens de ataque, alimentados por Gouveia e Paulo Assunção. Da primeira vez que andou perto da área de Moreira (23 m), Patacas aproveitou um link quebrado entre Fernando Aguiar e Armando, e cruzou para a cabeça de Serginho, hábil a explorar a descompensação defensiva encarnada a partir da esquerda.

Com a mudança de cenário, a presença de Fernando Aguiar em campo tornou-se ainda mais insustentável. Tanto como o adiantamento de Tiago que, bem marcado por Cléber, era obrigado a deixar para o incansável Petit todas as despesas do jogo.

Restavam dois argumentos ao Benfica para reequilibrar o marcador: as bolas paradas e o trabalho de sapa de Sokota, que travou com Emerson um duelo digno de gigantes. Por três vezes as marcações do Nacional abriram brechas. Por três vezes Hilário respondeu com defesas magníficas.

As memórias do Gondomar

O intervalo trouxe a luz do entardecer, e a memória de outro fim de tarde, há pouco mais de um ano, em que um certo Gondomar fez história. Para piorar as coisas para os homens de Camacho, o Nacional está muitas léguas à frente de um Gondomar, e mostrou, durante quase toda a segunda parte, que é uma equipa adulta e consistente, capaz de impor um ritmo ao jogo com a bola nos pés.

Faltou à equipa de Casimiro Mior - e terá sido essa a sua única falha em todo o jogo - um pouco mais de ousadia para explorar o crescente nervosismo de um Benfica que parecia entregar-se à eliminação dos pés à cabeça. As saídas de Geovanni e Fernando Aguiar tinham sido um acto de misericórdia de Camacho, mas a passagem de Simão para o meio e as entradas de João Pereira e Alex pouco acrescentaram ao jogo ofensivo de uma equipa à beira de um ataque de nervos. Tiago (de volta ao seu lugar, acabe-se de uma vez com as dúvidas) e Petit faziam das tripas coração. Sokota discutia os lances com a convicção dos obstinados. Mas tudo isso era curto, tudo isso era triste, tudo isso era fado.

Um despertador chamado Argel

A treze minutos do fim de um jogo que parecia morto, que Camacho teve a intuição de tirar Argel do banco. Para fazer o quê? Em teoria, para ajudar Sokota a ganhar bolas de cabeça nas imediações da área. Na prática, para despertar o público e os companheiros com uma injecção de revolta que viria a revelar-se determinante.

O brasileiro nem precisava de ter tocado na bola para conseguir o milagre da fé. Bastaram-lhe os gestos. Quando entrou em campo era provavelmente o único jogador de branco a acreditar que o jogo não estava decidido. Pouco depois, a mística tinha chegado à nova Luz, trazida pelos pés de Sokota, decisivo nos dois golos-relâmpago, primeiro na assistência para Tiago, depois no impecável trabalho que lhe permitiu ganhar espaço para o remate decisivo.

O Benfica, por caminhos acidentados, passou da eliminação ao apuramento, evitando de caminho mais 30 minutos de desgaste. A qualidade de jogo foi baixa, muito baixa, a quatro dias da visita do F.C. Porto. Mas quando se ganham jogos assim, a injecção de moral conta mais do que tudo o resto.

Bruno Paixão não teve influência no resultado. É praticamente a única coisa de positivo que se pode dizer acerca da sua actuação, sem critério disciplinar e com decisões tardias e aproximativas.

Nuno Madureira