Não fossem os salários em atraso ao plantel e à equipa técnica desde março, as notícias sobre investigações a contratos lesivos e empréstimos encapotados e uma série de histórias de bastidores contadas em surdina pelos protagonistas e o Aves ter-nos-ia apanhado de surpresa.

Mesmo assim, não deixámos de franzir o sobrolho, no dia 17 de julho, com a original intenção da SAD em faltar ao derradeiro jogo da Liga, frente ao Portimonense, sob o pretexto de «salvaguardar a verdade desportiva». Dois dias depois, novo anúncio: a ameaça de faltar também ao jogo contra o Benfica.

Para além dos salários, os seguros também não estavam em dia e a equipa não podia competir.

Ora, faltando a um jogo das últimas três jornadas, o Aves arrisca ser excluído das competições profissionais de seis a dez anos.

Estranhamente, não houve sinal de alerta, mas conformismo da parte da SAD, detida pela empresa Galaxy Believers de Wei Zhao e gerida por Estrela Costa. Até que, no início desta semana, os episódios foram-se sucedendo, fazendo-nos abrir progressivamente a boca de espanto.

Então, mais um jogador, o oitavo, rescindiu contrato por salários em atraso – o nono rescindiu ontem.

Então, o presidente do clube, tentando apresentar soluções para a cada problema novo que surgia, abriu as portas do pavilhão para os jogadores fazerem testes à covid, denunciando que «a SAD tudo está a fazer para o Aves não disputar os últimos jogos».

Então, a equipa médica, foi despedida pela SAD, num telefonema, por ter cumprido o seu dever de realizar testes à covid aos profissionais que iam participar no jogo.

Então, no dia da receção ao Benfica, as chaves do autocarro desapareceram e os jogadores tiveram de ir para o jogo em viaturas próprias ou a pé.

Então, em cima da hora, duas salas necessárias para a organização da partida estavam fechadas, obrigando à intervenção de um juiz e da GNR.

Então, desapareceu das instalações do clube a Taça de Portugal, conquistada em 2018.

E então, depois de tantos sinais no mesmo sentido, até o observador menos atento suspeitaria que a própria equipa estaria a ser alvo de sabotagem interna.

Perante isto, surgem as dúvidas: qual o motivo para a cada solução surgir um novo obstáculo a competir? A quem aproveita a falta de comparência da equipa? Quem beneficia de um cenário em que o clube cai diretamente para os Distritais, em vez de disputar a II Liga na próxima época?

A única resposta cabal foi dada pela equipa, que entrou em campo e depois de um protesto no primeiro minuto se bateu da melhor forma que pôde, e pelo seu treinador, Nuno Manta, que à falta de assessor se apresentou a si próprio, tentando no fim do jogo encontrar uma centelha de humor no meio de um drama.

E então, mesmo goleada por 4-0 pelo Benfica, a equipa do Aves venceu. E por isso mesmo os adeptos esperaram fora do estádio, agradecendo-lhe o esforço perante condições inaceitáveis para qualquer trabalhador em nome da salvação do clube.

Terça-feira à noite, os jogadores do Aves aprenderam que, mesmo perdendo, podem alcançar vitórias inimagináveis. Que sejam eles, com as forças que lhes restam, a destruir o lado mais pérfido do futebol.

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«Geraldinos & Arquibaldos» é um espaço de crónica quinzenal da autoria do jornalista Sérgio Pires. O título é inspirado pela expressão criada pelo jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que distinguia os adeptos do Maracanã entre o povo da geral e a burguesia da arquibancada.

Sérgio Pires