A Luz é terreno macabro para o Futebol Clube de Famalicão. É a lama de Verdun, a areia sangrenta da Normandia, a armadilha vietcong. Tudo transportado para a história desportiva entre os dois clubes, adversários já no próximo sábado no mesmo palco (18 horas).

Sete jogos oficiais nos registos, sete vitórias do Benfica, 25-6 para as águias em golos marcados. Em jogos só do campeonato nacional, a última visita famalicense à casa encarnada acabou em tragédia, permitam-nos a hipérbole: 8-0 em março de 1994, há 25 anos e nove meses.

Dessa partida saiu para as manchetes o nome de Celestino, autor de dois infelizes autogolos. Na rubrica «Depois do Adeus» do Maisfutebol, o antigo defesa central recordou com bom humor, até algum masoquismo terno, esse jogo dos anos 90.

«Claro que tinha sido melhor marcar os dois golos na outra baliza, mas enfim. Joguei muitos anos e nunca mais marquei um golo na própria baliza. Aconteceu naquele jogo, que para meu mal foi contra o Benfica, no Estádio da Luz e estava a dar em direto na televisão. Olhe, paciência.»

Nesse Famalicão a baliza era guardada por Luís Vasco. Nazareno de gema, Luís haveria de transferir-se para o Sporting em 1994. Um dos bons guarda-redes portugueses desse período.

Luís Vasco foi, curiosamente, o guardião do Famalicão nas três últimas visitas ao Estádio da Luz para o campeonato nacional. O homem ideal, pois, para recordar esses duelos e lançar o do próximo sábado, ou não fosse ele um dos homens com mais presenças pelos minhotos no escalão maior: 75 jogos entre 1991 e 1994.

10 de novembro de 1991: 2-1

Golos: Rui Costa (6’) e Rui Águas (72); Dane (53)

 

«Apontem este nome: Rui Costa». As manchetes do ‘day after’ não se enganam. No primeiro jogo a titular do Benfica para o campeonato, o rapaz de 20 anos acaba com a resistência famalicense logo aos seis minutos, num remate à meia volta, à entrada da área.

Luís Vasco tem o privilégio de entrar indiretamente na história pessoal do maestro da Luz.

«Foi a estreia do Rui Costa a titular no Benfica para o campeonato. O Famalicão fez um jogo ótimo, muito organizado. Houve mérito do Benfica na fase final, quando arriscou.»

Tudo bate certo. Dane empata aos 53 minutos, ao beneficiar de um livre indireto dentro da área, após lapso de Neno, mas Sven-Goran Eriksson arrisca no final e junta o experiente Rui Águas ao potente Mats Magnusson. O 2-1 é obra e graça da dupla de ponta-de-lanças.

«O Benfica era fortíssimo, principalmente a jogar na Luz. Já sabia que ia ter uma noite dura. Defendíamos todos, fechávamos bem e depois tentávamos aproveitar três ou quatro contra-ataques», recorda Luís Vasco, ele que elogia a organização do clube minhoto já na época 91/92.

«Nessa altura já fazíamos estágio antes dos jogos. Demorávamos quatro horas e tal até Lisboa e ficávamos em hotéis bons. Mas agora é tudo mais fácil.»

FICHA DE JOGO:

BENFICA: Neno; José Carlos (Rui Águas, 61), Rui Bento, Paulo Madeira, Veloso, Vítor Paneira, Rui Costa, Jonas Thern, Stefan Schwarz, Pacheco e Mats Magnusson.

Treinador: Sven-Goran Eriksson

FAMALICÃO: Luís Vasco; Secretário, Lula, Tanta, Ben-Hur, Carlos Fonseca, Luís Carlos (Barnjak, 75), Julinho, Lito, Dane e Menad (Carvalho, 56).

Treinador: Josko Skoblar

VÍDEO: o 2-1 de 1991 (imagens RTP)

14 de fevereiro de 1993: 1-0
Golo: Rui Águas (16’)

Luís Vasco acaba o Dia dos Namorados numa cama. Do hospital. Aos 28 minutos, o guarda-redes do Famalicão pontapeia a bola para a frente e, ao mesmo tempo, sofre uma pancada de Schwarz no joelho. Nove meses de paragem forçada.

«Sofri uma lesão gravíssima. Já perdíamos 1-0, o Marito fez um atraso, eu ia a bater a bola na frente e sofri a falta. Lá se foram os ligamentos cruzados internos, o menisco, horrível. Tive tantas dores que pensei que tinha uma fratura exposta. O massagista entrou, aplicou-me o spray milagroso e ainda joguei mais cinco minutos. Depois, num cruzamento, saltei e já não sentia nada na perna. Caí e saí.»

Não é fácil pedir a Luís Vasco outra memória que não essa. É um jogo demasiado forte na carreira do antigo guarda-redes.

«O Sporting já estava a negociar comigo e foi tudo adiado. Acabei por ir para lá só no fim da época seguinte. Fiquei dois anos em Alvalade. O primeiro ano foi de aprendizagem com o Lemajic e o Costinha. No segundo ano ainda fiz cinco jogos, porque o Costinha teve uma lesão. Fiz a primeira-mão da Supertaça contra o FC Porto, 0-0.»

FICHA DE JOGO:

BENFICA: Silvino; Veloso, William, Hélder, Schwarz, Kulkov, Paulo Sousa, João V. Pinto (Vítor Paneira, 84), Yuran, Isaías e Rui Águas (Paulo Futre, 58).

Treinador: Toni

FAMALICÃO: Luís Vasco (Tó Ferreira, 33); Lila, Vieira, Carlos Fonseca, Freitas, Jorginho, Marito (Rebelo, 77), Lito, Careca, Mihtarski e Medane.

Treinador: José Romão

12 de março de 1994: 8-0
Golos: Celestino (25 e 72, ambos autogolos), Rui Costa (31), Ailton (33), Yuran (59 e 87), Mozer (70) e Rui Águas (73)

Terceira presença de Luís Vasco na Luz com o Famalicão, hecatombe. Boooooommmm, corre tudo mal. Não são só os dois autogolos do infeliz Celestino. É mais. É o desnorte minhoto e a inspiração das águias, a tempestade perfeita.

«A diferença não era assim tão grande. Era grande, claro, mas tudo nos correu mal. O treinador Abel Braga disse-nos que se aguentássemos nos primeiros 30 minutos sairíamos da Luz com um bom resultado. Aguentámos 25 e levámos oito», conta o antigo guarda-redes.

«Caímos com estrondo, a equipa foi-se abaixo e depois foi ‘cada tiro, cada melro’. Ainda fiz uma ou outra defesa, mas a equipa morreu com os golos.»

Luís Vasco recorda o ambiente fúnebre no balneário e os dias difíceis que se lhe seguiram. Dias de luto, fechado em casa.

«Esse jogo foi a um sábado e só saí de casa para treinar na terça-feira. Foi demasiado mau, o mundo desabou em cima de nós. Não foi fácil levantar a equipa animicamente e acabámos por descer. Foi uma vergonha. Felizmente, o Sporting já estava de olho e manteve o interesse em mim.»

 

Falta falar do presente, da Liga 2019/20, do sensacional Famalicão. Que ambição para a Luz?

«O Famalicão tem hoje melhores condições. Vão fazer uma academia, têm um investidor forte e uma equipa repleta de bons jogadores. O Famalicão pode discutir o jogo, embora o Benfica esteja a atravessar o melhor momento da época. É pena que o Famalicão vá lá agora.»

Na baliza, os sucessores de Luís Vasco, um quarto de século depois, são Defendi e Vaná. Têm a bênção do antepassado na árvore genealógica das luvas.

«O Defendi e o Vaná dão totais garantias. Para estarem neste Famalicão têm de ser muito bons. Gosto da presença que têm na baliza e qualquer um deles pode jogar de início.»

Luís Vasco, o homem que guardou o Famalicão nas últimas três visitas à Luz para o campeonato. 11 golos sofridos e uma lesão horrível no joelho. Más memórias.