O discurso ao Congresso foi uma espécie de exceção positiva a uma regra que se mantém aterradora.

Pela primeira vez, Donald Trump pareceu ser Presidente dos EUA.

Foi, de facto, um ‘turning point’ no comportamento institucional e no vocabulário usado.

Depois de um discurso de posse demasiado ‘dark’ e negativo, falando numa ‘carnificina americana’ que obviamente não existe, Donald Trump terá percebido que foi longe de mais no tom depressivo e alarmista (que não terá caído bem mesmo na própria base conservadora, que olha para a América com orgulho e não com desdém) e apareceu, neste discurso ao Congresso, mais positivo e a falar na “grandeza americana”, o que contrasta claramente com a tese do “pesadelo americano” que vendeu durante a campanha.

Na tomada de posse, Trump insultou a História Americana.

No seu primeiro discurso no Congresso, em ‘joint session’ que substituiu o habitual State of The Union (que em anos de tomada de posse não se realiza), Donald escolheu visão muito mais positiva dos EUA, apelando aos seus melhores valores e recordando alguns dos episódios que marcam a história daquele grande país.

Foi um discurso muito mais inscrito na grande tradição americana, que citou antecessores como Lincoln e Eisenhower.

Resultado: pela primeira vez que se candidatou à presidência, Trump conseguiu ter um momento de algum consenso e união: 70% dos americanos inquiridos disseram aprovar o discurso.

Apontará isto para uma nova etapa na presidência Trump? Pode ser que sim, mas ainda é cedo para saber.

O que é certo é que os primeiros 40 dias da presidência Trump foram falhados: caóticos, incoerentes, inconsistentes.

O Presidente, que enquanto homem de negócios gosta de apresentar resultados, terá dado um sinal de que é tempo de começar a encontrar algum tipo de soluções com aliados e adversários.

A estratégia de agressão, da mentira e do insulto pode ajudar a energizar a base dos “furiosos”, mas a partir de certo ponto é curta.

Não chega dizer que os “os media são desonestos”. O Presidente dos EUA tem que puxar por consensos e apelar aos melhores valores.

Pela primeira vez desde que chegou à Casa Branca, Trump pôs a política de “terra queimada” do seu conselheiro-chefe Steve Bannon para segundo plano e mostrou que quer ser, também ele, uma figura do sistema, mesmo tendo chegado lá por fora.

Se no tom e no estilo houve enorme mudança para um discurso mais positivo, nas políticas as prioridades mantêm-se essencialmente as mesmas: protecionismo económico, reforço de fronteiras, «America First», contratem e comprem americano.

Trump lembrou que não é presidente do mundo, é só da América e, como tal, tem como objetivo proteger e defender os interesses dos americanos. Outras medidas: reforço do orçamento de Defesa em 54 mil milhões de dólares (noção de “América voltar a ser forte, voltar a demonstrar poder”), revogação do ObamaCare com “transição estável” para outro sistema que permita escolha privada; ISIS como inimigo a abater para “travar o terrorismo islâmico radical”, a maior ameaça aos EUA na visão de Trump; defesa clara do Estado de Israel.

Na questão de imigração, e apesar dos sinais dados nas horas anteriores que o Presidente se prepara para propor “Immigration Bill” bipartidária -- que aponte caminho para a legalização de milhões de imigrantes ilegais, a verdade é que, ao Congresso, reforçou a ideia de que “ser duro na política de imigração protege os trabalhadores americanos”.

Foi um Trump estranhamente “on message”, sem sair do texto, a ler um discurso estruturado durante uma hora -- e não a improvisar de forma provocadora ou, como fez na tomada de posse, a ler discurso bizarramente alarmista e negativa, fraco em citações e demagógico nos termos.

O que ganha em mostrar que pode ser institucional? Dá sinal claro de que, se chegar a uma situação em que corra mesmo o risco de se ver apeado do seu cargo, terá sempre formas de pôr um travão.

O radicalismo agressivo de Trump é estratégico. Não é ideológico (pelo menos nele) e muito menos aponta limitação intelectual do Presidente.

Faz parte do plano.

Outra vez a «Russia Connection»

Mas convém não anunciar um “novo Trump” só por causa do que se passou no Congresso.

A questão russa continua a provar que a Administração Trump corre risco permanente de perturbação.

Jeff Sessions, procurador-geral dos EUA, uma das figuras mais próximas do Presidente Trump, mentiu ao Congresso, durante o processo de confirmação, dizendo que não tinha tido contatos com responsáveis russos (e, afinal, teve).

Os senadores republicanos Lindsey Graham e John McCain exigem respostas imediatas de Sessions -- e outros congressistas dos dois partidos falam já na demissão do detentor do cargo equivalente a ministro da Justiça.

O procurador-geral já garantiu que não interferirá em eventuais investigações que se realizem sobre o tema. E Trump, que no mesmo assunto se manteve do lado do general Flynn, já saiu em defesa de Sessions e garante que não o vai demitir.

Será uma posição inteligente do Presidente?

A «Russia Connection» (que no primeiro mês já tinha provocado a queda do general Flynn do cargo de Conselheiro de Segurança Nacional) é, claramente, o maior problema e a maior ameaça para a Administração Trump.

Germano Almeida