As histórias de sucesso no futebol não se fazem só de campeões. São os que nunca desistem, os que lutam, os que superam dificuldades ao longo da carreira que fazem os mais duros comoverem-se. São essas as histórias que nos fazem acreditar que, afinal, o futebolista também é um ser humano.

Emiliano Martínez encaixa-se neste modelo de jogador. No Arsenal desde 2010 (os mais distraídos podiam pensar que era uma contratação recente), o guarda-redes somou consecutivos empréstimos a clubes dos mais variados escalões. Sempre a espreitar uma oportunidade, que teimou em não aparecer durante anos.

De facto, o argentino foi contratado ao Independente para integrar a equipa de reservas dos londrinos. Ainda com 17 anos, assinou por uma verba que rondou um milhão e meio de euros [dados Transfermarkt], incomum à data para um jogador da sua idade. E principalmente da sua posição.

Depois de um ano no London Colney [centro de estágios do Arsenal], é emprestado ao Oxford, clube da League One, correspondente ao terceiro escalão.

Aí fez apenas um jogo durante essa temporada. No seu último ano de júnior, chegou a fazer dois jogos para a Taça da Liga, com a equipa principal dos Gunners. Num deles, que certamente ficou na memória de todos os adeptos ingleses, a contar para a quarta eliminatória da competição, 'Emi' fez 120 minutos, foi amarelado e ainda viu a sua equipa a recuperar de uma desvantagem de 4-0 para acabar a vencer o jogo por 7-5 (!) frente ao Reading.

Seguiram-se empréstimos ao Sheffield Wednesday, Rotherham e Wolveramphton, tudo emblemas do segundo escalão, onde não logrou jogar mais do que 15 partidas num ano.

24 anos, o estatuto de jovem promessa há muito desvanecido, e as oportunidades ainda sem surgir. Nem no Arsenal, nem em emblemas cujo contexto competitivo previa uma maior utilização de Emiliano Martínez.

Saltamos para 2017, ano em que o argentino é emprestado ao Getafe. Talvez a facilidade na comunicação, a presença num país mais parecido ao seu pudesse ser benéfica. Nem isso... Terminou com sete jogos realizados.

Em 2018/19, após mais meia época de parca utilização, é emprestado ao Reading. Aí, conseguiu encontrar a estabilidade que nunca teve. Foram 18 partidas jogadas, de forma consecutiva, algo que nunca tinha vivido na sua (já podemos dizer longa?) carreira.

A dois meses de completar 27 anos, volta ao Arsenal. Oito temporadas, seis empréstimos, 78 jogos.

Muito pouco, para um jogador de um dos melhores clubes da Europa. Uma média de (quase) 10 jogos por temporada. Se considerarmos números apenas do clube da capital londrina, a média baixa drasticamente. Nem dois jogos por época realizou ao serviço do clube que representava já há oito anos.

Apesar disso, nunca baixou os braços e a sua sorte parece ter começado a mudar. Já na presente temporada, completou o maior número de jogos da carreira: 23... ao serviço do emblema que sempre quis.

Foram 10 anos de espera, 10 anos de luta, 10 anos de dificuldades. Um sofrimento passado a um oceano de distância da sua família. Aos 27, a sua oportunidade finalmente chegou. Ingrata a posição de guarda-redes, em que uma oportunidade significa desgraça alheia.

E foi mesmo isso que se passou. Ao minuto 50 do jogo frente ao Brighton, Leno não aguentou mais e pediu para sair. Emi aqueceu rapidamente, e agarrou a baliza de Mikel Arteta com as duas mãos.

Terminou o campeonato a titular, e teve ainda a cereja no topo do bolo - a conquista da Taça de Inglaterra. Grande exibição do argentino (que teve o mérito de, nem que seja durante algum tempo, ter feito esquecer Bernd Leno), vitória conquistada, e muita emoção na flash-interview.

O humilde jogador, que soube baixar a cabeça para trabalhar durante 10 anos, levantou-a finalmente, mas as lágrimas impediram-no de se expressar de forma mais clara.

 

Após isso, o jogador com mais anos de casa no Arsenal sentou-se encostado a um painel publicitário. Ligou à família e voltou a chorar.

Espírito de sacrifício, trabalho, foco e superação. Podíamos descrever assim a carreira de Emi até agora. Um exemplo para todos os jovens jogadores que sonham chegar ao estrelato.

Por vezes o caminho leva mais tempo do que aquele para o qual estamos preparados. A paciência, aqui, recompensou o agora celebrizado guarda-redes.

Por fim, e quando questionado pelo clube [em 2015], sobre qual o seu sonho de carreira, Emi deu mais uma amostra do que é o seu espírito de abnegação.

«Algum dia haver um miúdo que diga 'Partilhei balneário com ele'.»

Afonso Cabral