A ginasta norte-americana Simone Biles culpou a federação de ginástica dos Estados Unidos e "todo o sistema" por terem permitido que Larry Nassar, que foi médico da equipa nacional durante 20 anos, abusasse sexualmente dela e de centenas de outras ginastas.

"Culpo Larry Nassar e culpo também todo o sistema que permitiu o seu abuso", disse Biles,  a ginasta olímpica mais condecorada de todos os tempos ao testemunhar, esta quarta-feira, no Comité Judicial do Senado sobre os abusos que sofreu do ex-médico da equipa Larry Nassar.

As ex-companheiras de equipa Aly Raisman e McKayla Maroney, Maggie Nichols, a primeira ginasta a denunciar os abusos de Larry Nassar, e o diretor do FBI Christopher Wray também foram ouvidos pela comité que está a analisar as falhas na investigação do FBI sobre Nassar, que foi depois condenado por abuso sexual e está neste momento a cumprir uma pena de prisão perpétua.

Num testemunho emocionado, as quatro mulheres contaram ao Comité Judiciário do Senado como "sofreram e continuam a sofrer", primeiro com os abusos e, depois, com a forma as suas queixas foram ignoradas e o modo como foram tratadas pelas autoridades.

Simone Biles foi clara em alargar as culpas à USA Gymnastics, ao Comité Olímpico e ao Paralímpico do país, que, diz, "sabiam que estava a sofrer abusos por parte do médico da equipa".

A campeã olímpica do Rio2016 também acusou o FBI, departamento federal de investigação dos Estados Unidos, de ter "virado as costas" às ginastas, ao responder de forma desadequada e lenta às primeiras acusações contra Nassar, o que terá permitido ao antigo médico prosseguir os abusos durante meses. Pediu, por isso, que os agentes envolvidos no caso fossem processados.

"Quanto vale uma rapariga?", perguntou Simone Biles. "Sinto mesmo que o FBI fez vista grossa."

Biles afirma que "um sistema inteiro permitiu" os abusos contra ela e centenas de outras  jovens, que pela sua idade nem sequer sabiam que estavam a ser abusadas por Nassar.

"Não quero que nenhum outro jovem desportista olímpico ou nenhum outro indivíduo sofra o horror que eu e centenas de outras suportaram e continuam a suportar", declarou Biles, emocionada a ponto de começar a chorar perante dezenas de legisladores que a observaram em silêncio.

Aly Raisman, que foi capitã das equipas de ginástica olímpica dos Estados Unidos de 2012 e 2016, também expressou a sua repulsa por, mais de seis anos depois de denunciar seu abuso,  "ainda estar a batalhar pelas respostas mais básicas e pela responsabilidade". 

“Nos últimos anos, tornou-se dolorosamente claro como a cura de uma sobrevivente é afetada pela forma como o abuso é tratado”, disse.

Raisman também criticou a investigação do FBI, sublinhando que não avaliar as suas falhas graves resultaria num "pesadelo" recorrente para muito mais mulheres.

McKayla Maroney, que ganhou o ouro nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, contou que ao ser entrevistada pelo FBI sentiu um enorme "silêncio e indiferença" pelo seu trauma. “Eles escolheram distorcer e mentir sobre o que eu disse e proteger um abusador de crianças”, acusou. 

"De que adianta denunciar abusos se os nossos próprios agentes do FBI se vão encarregar de enterrar esse relatório numa gaveta?"

O Comité Judicial do Senado pretende esclarecer porque o gabinete do FBI de Indianápolis, onde se situa a sede da USA Gymnastics, respondeu de forma não adequada às denúncias contra Nassar.

Um relatório interno do Departamento de Justiça relevou, em julho, erros graves no seio do FBI que levaram a que a investigação ficasse parada mais de oito meses. Quando esse documento de 119 páginas foi tornado público, um grupo de senadores avançou com uma audiência para investigar a resposta do FBI e para corrigir erros institucionais.

Nassar usou a sua posição como médico para abusar de, pelo menos, 330 jovens, incluindo menores e atletas olímpicas. Cumpre uma pena de 40 a 175 anos pelo cúmulo desses crimes e outra de 60 anos por pornografia infantil, ou seja, uma pena de prisão perpétua de facto.

A condenação foi proferida entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018, coincidindo com o início do movimento #MeToo nos Estados Unidos.

Maria João Caetano