Festas ilegais em plena pandemia, ajuntamentos populares para observar fenómenos naturais ou relutância em acatar medidas impostas pelas autoridades governamentais e de saúde, como o uso obrigatório de máscara, são comportamentos que se têm verificado em Portugal, mas também na generalidade dos países ocidentais, e que podem explicar porque é que o Ocidente e o Oriente estão a atravessar uma segunda vaga da pandemia com níveis de gravidade tão díspares. É pelo menos isso que defende o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que vive e trabalha em Berlim.

Num artigo que consta do seu novo livro “Todesarten - Philosophische Untersuchungen zum Tod” (traduzindo à letra o título será “Caras da Morte – Investigações Filosóficas Sobre a Morte”, um livro que ainda não foi publicado em Portugal), Byung-Chul Han defende que o segredo para o sucesso asiático no combate à propagação do vírus SARS-CoV-2 pode estar no “civismo” e na coesão social.

No artigo que foi publicado no jornal El País (em Espanha, o livro foi publicado neste mês de outubro), o filósofo dá como exemplo o Japão, mas também a Coreia do Sul, Taiwan, Singapura ou Hong Kong, que têm sido capazes de manter a pandemia controlada. Em contrapartida, na maioria dos países europeus e nos Estados Unidos, a segunda onda de contágios está a ser até mais violenta que a primeira.

“Na Ásia, praticamente não houve reinfeções. Os números de contágios atuais são tão baixos que podem ser desvalorizados. São justamente estes países que demonstram que podemos enfrentar a pandemia com sucesso mesmo sem uma vacina”, escreve, citado pela edição brasileira do El País .

Nesta comparação, Byung-Chul Han deixa de fora a China, por causa do tipo de autoridade sobre o indivíduo imposto pelo regime. Mas, na sua visão, no que toca a lidar com a pandemia, o “liberalismo ocidental” está a fomentar a “decadência do civismo”.

“O liberalismo parece inclusive propiciar a decadência do civismo. Justamente esta situação ensina-nos como o civismo é importante. Que grupos de adolescentes façam festas ilegais em plena pandemia, que se assedie, cuspa ou tussa em polícias que tentam demovê-los, que as pessoas não confiem mais no Estado, são amostras da decadência do civismo”, escreve.

O que fez a Ásia que a Europa não fez?

No seu novo livro, Byung-Chul Han faz o exercício de comparação entre as medidas impostas em países ocidentais, sobretudo na Europa, como o confinamento, o recolher obrigatório ou a imposição do uso de máscara, e as que são levadas a cabo por países orientais.

“Como se explica então que, independentemente do sistema político dos respetivos países, os índices de contágio na Ásia se tenham mantido tão baixos? O que une a China com o Japão ou a Coreia do Sul? O que Taiwan, Hong Kong e Singapura fazem de forma diferente dos nossos países europeus? Os virologistas especulam sobre as causas da Ásia ter números de contágio tão baixos. O prémio Nobel de Medicina japonês, Shinya Yamanaka, fala de um ‘fator X’ que é dificilmente explicável.”

O tal ‘fator X’, considera o filósofo e ensaísta, estará então na capacidade de acatar medidas sanitárias  - e de as cumprir  - e na união popular. E, a este propósito, compara dois exemplos distintos: Nova Zelândia e Estados Unidos.

“A Nova Zelândia é um país liberal que já venceu pela segunda vez a pandemia. O êxito dos neozelandeses consiste também na mobilização do civismo. A primeira-ministra, Jacinda Ardern, falava entusiasticamente da ‘equipa de cinco milhões’. O seu apaixonado apelo ao civismo foi muito bem acolhido pela população. Pelo contrário, o desastre norte-americano pode ser explicado porque Trump, levado pelo seu puro egoísmo e seu afã de poder, minou o civismo e dividiu o país. A sua política torna totalmente impossível sentir-se como parte de um nós.”

E não é esse respeito pelas regras e a união popular em torno do combate à pandemia que retira liberdade ao povo: “Paradoxalmente, têm mais liberdade os asiáticos, que acatam voluntariamente as severas normas higiénicas. Nem no Japão nem na Coreia foi decretado o encerramento total nem o confinamento. Também os danos económicos são muito menores do que na Europa. O paradoxo da pandemia consiste na pessoa acabar por ter mais liberdade se impuser voluntariamente restrições a si mesma. Quem rejeita por exemplo o uso de máscaras como um atentado à liberdade acaba afinal por ter menos liberdade.”

O caso particular da China

Byung-Chul Han sublinha que a China é um caso à parte neste sucesso asiático no combate ao vírus. Um sucesso que “se pode explicar em parte porque lá o indivíduo está submetido a uma vigilância rigorosa, que no Ocidente seria inconcebível”.

“Mas a Coreia do Sul e Japão são democracias. Nestes países não é possível um totalitarismo digital ao estilo da China”, destaca.

A vigilância eletrónica como ferramenta no combate à pandemia

Embora admita que a vigilância eletrónica possa ser uma ferramenta útil, Byung-chul Han considera que não está aí o segredo. E reforça mesmo que o exemplo chinês não poderia ser aplicado no mundo ocidental e… ainda bem: “É incontestável que o liberalismo ocidental não pode impor a vigilância individual do tipo chinês. E é melhor que seja assim. O vírus não deve minar o liberalismo.”

Mas, de alguma forma, o filósofo, professor e ensaísta ironiza com a relutância do Ocidente em acolher uma medida como a vigilância eletrónica, lembrando que temos a vida exposta em plataformas digitais como o Google ou o Facebook.

“O Google lê e analisa e-mails, sem que ninguém se queixe disso. A China não é o único país que solicita dados dos seus cidadãos com o objetivo de os controlar e discipliná-los. O procedimento de 'scoring' (qualificação de crédito social) na China baseia-se nos mesmos algoritmos que os sistemas ocidentais de avaliação de crédito, como o FICO nos Estados Unidos e o Schufa na Alemanha. Olhando assim, a vigilância panótica não é um fenómeno exclusivamente chinês.”

“Dada a vigilância digital, que de qualquer forma já ocorre em todas as partes, o monitoramento anonimizado de contatos através do Corona-app seria algo totalmente inofensivo”, remata.

Continuar a viver em Berlim

O liberalismo ou a ausência dele parece ser a palavra-chave para desvendar o mistério do sucesso da Ásia face ao insucesso da Europa no combate ao vírus.

“O civismo e a responsabilidade são armas liberais eficazes contra o vírus. Não é verdade que o liberalismo conduza necessariamente a um individualismo vulgar e a um egoísmo que joguem a favor do vírus. (…) Liberalismo e civismo não têm que se excluir. Civismo e responsabilidade são mais um pré-requisito essencial ao bom resultado de uma sociedade liberal.”

O filósofo lembra que os países asiáticos não têm um cunho liberal muito desenvolvido e, por isso, são “pouco tolerantes com as divergências individuais”.

“Daí que os imperativos sociais tenham tanto peso. Esse é também o motivo pelo qual eu, sendo coreano de nascimento, prefiro continuar a viver no foco da infeção, que é Berlim, e não em Seul, por mais limpa de vírus que esteja.”

Considera Byung-chul Han que “quanto mais liberal for uma sociedade, maior civismo será necessário”. “A pandemia ensina-nos o que é a solidariedade. A sociedade liberal necessita de um nós forte. Caso contrário, desintegra-se numa coleção de egoístas” que facilita o caminho ao vírus, resume o autor.

Byung-Chul Han tem vários livros publicados em Portugal, pela editora Relógio d’Água, entre eles “A Sociedade do Cansaço” e “Do Desaparecimento das Rituais” (este publicado em agosto deste ano).

Manuela Micael