O juiz que investiga o desvio de fundos públicos na Catalunha atribuiu ao informático Jaume Cabaní um papel-chave na transferência de dinheiro para o ex-presidente Carles Puigdemont, através de criptomoedas e da criação de uma ‘república digital’.

Tal como consta de um relatório da Guardia Civil remetido ao titular do julgado de instrução número 1 de Barcelona, Joaquín Aguirre, o investigado Jaume Cabaní teria obtido recursos da Plataforma Pró-Seleções Desportivas Catalães provenientes de subvenções públicas que se teriam usado para financiar as atividades de Puigdemont.

Do sumário do processo, consultado pela Efe, depreende-se que estes fundos foram utilizados, entre outros fins, para pagar os honorários dos advogados do ex-presidente, fugido à justiça, através de uma transferência feita em finais de 2017 para uma entidade que permite o câmbio de bitcoins por euros.

Os fundos teriam sido canalizados através de uma plataforma, à qual Cabaní emitiu uma fatura de 10.559 euros em agosto de 2017, “mascarando assim o verdadeiro destino” dos mesmos que, para a Guardia Civil, “não é outro que desenvolver os sistemas tecnológicos e informáticos que permitam a instalação da criptomoeda e da república digital”.

A Guardia Civil considera também que o dinheiro recebido pelo informático poderia estar a ser transformado em criptomoeda, que o próprio venderia e com a qual se financia o desenvolvimento da república digital, “para escapar ao controlo das autoridades”, pelo que pode ter havido um crime de desvio de recursos públicos e outro de branqueamento de capitais.

Cabaní, para quem o juiz emitiu uma decisão europeia de investigação, dado o risco de ocultação e destruição de provas, mudou-se para a Bélgica no início de 2018 e registou-se como informático na denominada Casa de la República, a residência belga de Puigdemont.

Este, estaria alegadamente a beneficiar de parte do dinheiro obtido de forma irregular, através de entidades intermediárias e com adjudicação de subvenções, outorgadas por instituições sobre a direção da JxCat (coligação Juntos pela Catalunha) e da extinta Convergència.

Além dos da Plataforma Pró-Seleções Desportivas Catalães, Cabaní teria recebido fundos da Fundação Barcelona Formação Profissional, Fundação Bertelsmann, Agência de Empreendedorismo, Inovação e Conexão – cujos sócios são as autarquias de Vic e de Manlleu, o Conselho da Comarca de Osona e a Fundação Universitária Balmes –, a Associação Unidos para o Fomento da Coesão e da Catalunidade (AUFCC), Partal Maresma i Associats (Vilaweb) e CatGlobal.

No total, acrescenta o documento da Guardia Civil, os fundos procedentes destas entidades excederiam os 120 mil euros.

A Guardia Civil também concluiu que, com base em conversas telefónicas, entre os exdirigentes da CDC David Madí e Víctor Terradellas, que Cabaní era o “cérebro” encarregado do projeto da criptomoeda, com o qual se queria “provocar uma mudança no modelo económico, transformando os recursos monetários de que pudessem dispor na atualidade ou no futuro”, através da aquisição de ‘bitcoins’ com dinheiro público desviado.

Esta “transformación digital” estaria a ser impulsionada pelo Conselho da República e por Puigdemont, com quem Cabaní mantém uma “estreita relação”, ocupando inclusive uma situação estratégica na esfera do poder” do ex-presidente, cujos trabalhos coordenaria em ligação direta com o Departamento de Políticas Digitales, que dirige Jordi Puigneró.

No seu relatório, a Guardi Civil sublinha que a digitalização “é uma via de fuga ao controlo do Estado” para os dirigentes independentistas, que pretenderiam criar uma “administração virtual”, para que os cidadãos pudessem votar em uma Catalunha independente, seguindo o modelo da Estónia, onde precisamente Cabaní tem uma empresa.

Desta maneira, ainda segundo a Guardia Civil, os investigados consideram a criptomoeda como “a via ideal para conseguir os seus objetivos”, designadamente “dispor de financiamento, originariamente proveniente de fundos públicos, para avançar para a independência”.

/ HCL