No dia 22 de março, o governador do Ohio escreveu no Twitter “Não enfrentávamos um inimigo como o que enfrentamos hoje há 102 anos”. Mike DeWine, republicano como Donald Trump, comparava o novo coronavírus à pandemia da chamada gripe espanhola de 1918, que em dois anos infetou um quarto da população mundial e terá matado 50 milhões de pessoas, embora haja estimativas que duplicam este número de vítimas mortais. No mesmo dia 22, o Presidente Trump usava o Twitter para escrever “Não podemos deixar que a cura seja pior que o problema em si”, tudo grafado em maiúsculas. O inquilino da Casa Branca via então já o seu trunfo número um para a reeleição em novembro – a pujante economia americana – a desmoronar-se sob o impacto da epidemia da Covid-19, um impacto que o Presidente passou semanas a desvalorizar, e que ainda desvaloriza.

Trump também escrevia nesse mesmo dia na mesma rede social “O meu amigo senador Rand Paul acabou de testar positivo para o Vírus Chinês”, sabedor de que um inimigo externo dá sempre jeito a qualquer líder político nacional. Externo ou não, o inimigo já tinha penetrado as fronteiras dos EUA havia um mês, e o país contabilizava então mais de 33 mil casos e mais de 400 mortes.

Cinco dias antes, a 17 de março, já 48 dos 50 estados da União tinham declarado o estado de emergência por causa da epidemia, uma medida essencialmente burocrática que permite o acesso a verbas oriundas do governo central. Apesar da sua relutância em reconhecer a gravidade da situação, o Presidente tinha declarado o estado de emergência nacional na sexta-feira, 13 de março. O que não impedia as repetidas queixas dos governadores estaduais de que a Casa Branca continuava a não lhes dar, nem de longe, os meios suficientes para fazer frente à crise epidémica. É por isso que Donald Trump, ainda nesse mesmo dia 22, reverberava no Twitter “JB Pritzker, Governador do Illinois, e um grupo muito pequeno de certos outros Governadores, não deviam estar a culpar o Governo Federal pelas suas próprias insuficiências”.

O grupo não era assim tão pequeno, como se sabe. Com um sistema político federal, os EUA funcionam governativamente de forma altamente descentralizada, inclusive perante uma emergência de saúde que afeta todo o país. Cabe aos governadores estaduais decidir as medidas necessárias em cada estado, e ao governo federal cabe a disposição de meios financeiros e materiais para ajudar à implementação dessas medidas. E também, crucialmente, cabe à administração central em Washington DC a emissão de orientações gerais aos estados para fazer face a crises como a desta pandemia. Ao longo do último mês e meio, o desfasamento entre os estados e a administração Trump tem sido gritante.

Há Washington DC e há Washington

O primeiro caso de Covid-19 nos EUA foi confirmado a 21 de janeiro na outra Washington, o estado de Washington na costa oeste do país, estado fronteiriço com a província canadiana da Colúmbia Britânica. Tratava-se de um homem de 35 anos que tinha chegado seis dias antes de uma visita à família em Wuhan, a cidade chinesa berço desta pandemia. O paciente sobreviveu à doença, mas rapidamente se constatou que já existia contágio comunitário no estado. Descobriram-se dezenas de infetados num lar de idosos em Kirkland, um subúrbio de Seattle. A 14 de março, esse lar já tinha registado 13 mortos pela doença. Duas semanas antes, a 29 de fevereiro, após a primeira morte, o governador Jay Inslee, um democrata, tornou-se no primeiro a decretar o estado de emergência em território americano.

Washington é o 13º estado mais populoso do país, com 7,6 milhões de habitantes. É um estado rico, no décimo lugar em termos nacionais no que concerne à riqueza produzida, para a qual muito contribui o facto de a Boeing, a Microsoft e a Amazon terem a sua sede em Seattle, 18ª cidade mais populosa dos states, urbe onde pontificaram os Nirvana e os Pearl Jam, bandas míticas do grunge rock nos anos 90. Há apenas três semanas, o estado era o mais afetado pelo vírus em todo o país. Agora no início de abril, Washington ocupa apenas o nono lugar entre eles.

Como primeiro epicentro americano da epidemia, Washington reagiu antes dos outros estados, seguindo a recomendação principal da Organização Mundial de Saúde: testar, testar, testar. Isso fez com que os casos detetados o pusessem no topo dos números da epidemia. Mas fez também com que avançasse antes dos outros com as medidas de distanciamento social, desde o fecho de escolas até à ordem para que a população em geral ficasse por casa. Um processo gradual, mas que implicou choques violentos com o homem que os americanos elegeram para Presidente em 2016.

A 28 de fevereiro, uma semana depois do primeiro caso, o governador Inslee falou com o vice-presidente Mike Pence – oficialmente o coordenador nacional da resposta à epidemia – e disse-lhe que “o nosso trabalho teria mais êxito se a administração Trump se ativesse à ciência e dissesse a verdade”. A reação do Presidente foi dizer que esse governador é “uma cobra”. Se a situação evoluir como é expectável, a “cobra” a que Donald Trump se referia em breve deve ver com alguma satisfação o seu estado de Washington cair da lista dos dez mais afetados.

De costa a costa

Entretanto, o nada invejável lugar de epicentro infecioso no país foi tomado pelo estado de Nova Iorque, com perto de metade dos infetados em todos os EUA e cerca de oito mil mortes no início deste mês de abril. São dados que nada têm de surpreendente. Afinal, trata-se do quarto estado mais populoso (19,5 milhões de habitantes) e o que alberga a cidade mais populosa da nação (8,5 milhões de habitantes), e que é também a mais cosmopolita.

O governador democrata, Andrew Cuomo, emitiu a ordem para que a população se confinasse a casa a 22 de março, com diretivas ainda mais restritivas para os idosos, estas conhecidas como a Lei de Matilda, pois assim se chama a mãe do político, matriarca essa que tem outro filho já infetado, Chris Cuomo, o apresentador da CNN. Cuomo, o governador, tem chocado repetidamente com a Casa Branca em torno da falta apoio federal suficiente no fornecimento de máscaras cirúrgicas e de ventiladores, estes últimos, na prática, a terapia mais eficaz que existe por enquanto para manter vivos os doentes.

Entre os dez estados mais assolados pela epidemia no início de abril, apenas quatro não fazem parte também dos dez mais populosos. São Nova Jérsia, o 11º em população, mas que leva por tabela pela sua vizinhança suburbana com a cidade de Nova Iorque, da qual o separa apenas o rio Hudson; Massachusetts, 15º em população, com a 21ª cidade mais populosa, Boston, centro de atração académica mundial devido a universidades como Harvard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT); Washington, 13º mais populoso, já acima referido; e a Luisiana, 25º em população, mas com um contributo decisivo para o seu nível de epidemia dado por Nova Orleães, cidade do mais famoso carnaval americano, o Mardi Gras, que este ano decorreu como nos outros anos, e que pode ter sido o motivo para que o estado esteja a registar o maior ritmo de crescimento de casos em todo o mundo.

Assim, o padrão de alastramento da epidemia nos EUA obedece, grosso modo, ao critério demográfico dos estados e centros urbanos mais populosos. Que, por acaso ou talvez não, são na maior parte governados por democratas, a oposição aos republicanos do Presidente Trump, introduzindo ainda mais do que o habitual um fator de luta partidária no esforço de combate à pandemia.

Mas além dos números brutos da demografia, o top ten da crise sanitária no país evidencia outro padrão ainda mais claro do que o demográfico. Quase todos os estados dos dez mais afetados são territórios costeiros, geográfica e culturalmente mais ligados ao estrangeiro: Nova Iorque (1º mais afetado), Nova Jérsia (2º), Califórnia (3º), Florida (5º), Massachusetts (6º), Luisiana (8º) e Washington (9º).

As três exceções acabam por nem ser bem exceções. Uma particularidade territorialmente pequena faz com que a Pensilvânia (10º) não tenha costa atlântica, mas é vizinha de Nova Iorque e de Nova Jérsia. As outras duas exceções são o Michigan (4º mais afetado) e o Illinois (7º). Este último estado, o sexto com mais habitantes, é dominado por Chicago, a terceira mais populosa cidade americana, a seguir a Nova Iorque e a Los Angeles na Califórnia. O Michigan, que é o décimo estado americano em população, tem como maior cidade Detroit, a 23ª em habitantes, em cuja área metropolitana têm sede os três gigantes da indústria automóvel, General Motors, Ford e Chrysler. Mas tanto o Illinois como o Michigan, não tendo costa oceânica, são “costeiros” de outra forma: são banhados pelos Grandes Lagos americanos, que fazem fronteira com o Canadá, e a fronteira só foi fechada a 17 de março.

Portanto, por mais óbvia que seja a constatação, a geografia é a chave mais eficaz para perceber a evolução da pandemia de Covid-19 nos EUA nesta fase, ainda inicial. Em 1992, perante a recessão económica então em curso, um estratega da equipa de Bill Clinton cunhou uma frase que se tornou o slogan não oficial da campanha presidencial que levaria o candidato democrata a conquistar a Casa Branca ao Presidente George Bush Pai: “É a economia, estúpido!”. Usada com tantas variações desde então, agora, quase três décadas depois, talvez fosse útil para o próprio Presidente americano ouvir de um conselheiro a variação apropriada para a pandemia do novo coronavírus: É a geografia, estúpido!

Dois vizinhos, dois destinos

Porém, face a geografias semelhantes, e a demografias semelhantes, os governantes têm margem de manobra para influir de maneira diferente no curso da epidemia. Independentemente do partido a que pertencem. Vejam-se os casos do Michigan e do Ohio, estados vizinhos.

O primeiro, com dez milhões de habitantes, é governado pela democrata Gretchen Whitmer. O segundo, com uma população de 11,7 milhões, tem como governador Mike DeWine, um republicano, como já vimos. Dos que pertencem ao partido do Presidente, DeWine foi o governador de um estado grande com a resposta mais forte à epidemia. Logo a 21 de março, emitiu a ordem para que os habitantes do seu estado ficassem em casa a partir do dia 23. Ao mesmo tempo, a sua vizinha democrata apelou apenas ao confinamento da população nas suas casas. Ambos os estados foram decretando medidas cada vez mais restritivas para a população e empresas, com diferenças de muito poucos dias ou às vezes até de horas.

A 9 de março, o Ohio anunciou os seus três primeiros casos de Covid-19, e só no dia seguinte o Michigan anunciou os seus primeiros dois infetados. O Michigan até fechou as escolas um dia antes do que o Ohio, a 16 de março. Mas ainda assim, três dias depois, o Michigan já tinha o triplo dos contaminados que o Ohio tinha. O estado governado por DeWine chegou ligeiramente mais cedo do que o Michigan ao adiamento de operações cirúrgicas não urgentes, ao fecho de barbeiros, cabeleireiros, esteticistas ou piscinas e ao encerramento de centros de dia para idosos, ou à ameaça de encerrar empresas se estas não estivessem a implementar as regras de distanciamento físico.

Estamos portanto ao nível da microgestão da crise, mas que teve aparentemente um impacto significativo. Chegados ao início de abril, o Michigan, décimo do país em população, era o quarto estado mais afetado, com mais de nove mil casos positivos e para cima de 300 mortos, enquanto o Ohio, sétimo estado mais populoso, não passava do 17º lugar, registando apenas uns 2.500 casos e somente 65 mortes.

O único dado que aponta para alguma diferença significativa na abordagem adotada entre os dois estados vizinhos perante a ameaça do vírus é que o Michigan realizou apesar de tudo as suas eleições primárias presidenciais no dia 10 de março, enquanto o Ohio adiou as suas primárias previstas para 17 de março. Do ponto vista partidário, a decisão de adiar as eleições era sempre mais complicada para Gretchen Whitmer, porque a corrida à nomeação como candidato oficial do Partido Democrata ainda estava em aberto entre Joe Biden e Bernie Sanders, enquanto no Partido Republicano as primárias são uma mera formalidade, já que é na prática garantido que o candidato republicano às presidenciais de novembro será o atual Presidente, Donald Trump.

O elo mais fraco

A comparação entre o Michigan e o Ohio é ilustrativa de que, mesmo perante um vírus que não distingue fronteiras, países, povos, classes, partidos ou convicções ideológicas, é possível ter respostas melhores ou piores, ainda que ligeiramente. Mas se o líder máximo de um país transmite sistematicamente a impressão de que aquilo que se tem pela frente não é nada de especial, essa impressão pode ter consequências fatais na população, especialmente quando se lida com um vírus muito contagioso para o qual não existe imunidade à partida. Donald Trump não fez tudo errado na resposta à epidemia. No dia 31 de janeiro proibiu a entrada nos EUA a todos os estrangeiros que tivessem estado na China nas duas semanas anteriores. A 11 de março, o Presidente proibiu também a aterragem no país de todos os voos provenientes de 26 países da União Europeia. E três dias mais tarde alargou essa proibição à Irlanda e ao Reino Unido. Para um Presidente com uma plataforma anti-imigração, foram decisões fáceis, atendendo à necessidade de satisfação do seu eleitorado.

Quanto às decisões difíceis, se acaba por tomá-las, Trump anuncia-as quase sempre com o tom cético de quem o faz a contragosto. O homem que ele escolhe para coordenar a resposta governamental à epidemia, o Vice-Presidente Mike Spence, decide autorizar o desembarque de passageiros contaminados de um navio de cruzeiro na Califórnia, e Trump diz que, se dependesse dele, não desembarcariam, pois que isso faria aumentar os números da epidemia no país.

A 28 de fevereiro, o Presidente afirmou “Agora os democratas estão a politizar o coronavírus, isto é a nova fraude deles”. E já depois de ter emitido orientações para distanciamento individual e confinamento em casa durante duas semanas, Trump ainda declarou publicamente, a 24 de março, que admitia abrandar essas medidas de modo a ter, no dia 12 de abril, domingo de Páscoa, “as igrejas a abarrotar no nosso país inteiro”. Cinco dias mais tarde, perante a evidência de que a epidemia nos EUA ainda nem tinha chegado ao fim do seu início, o Presidente lá prolongou as orientações restritivas do governo federal até 30 de abril.

Essa decisão foi anunciada no domingo, 29 de março, o mesmo dia em que Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, presença regular nas conferências de imprensa diárias da equipa de resposta à Covid-19 na Casa Branca, estimou que o vírus matará entre 100 a 200 mil americanos. Mesmo com um Presidente muito competente, os EUA, um país-continente democrático e aberto ao mundo, estariam em maus lençóis nesta pandemia. As ações, omissões e palavras do Presidente Trump, evidentemente, já contribuíram para que o número de vítimas mortais acabe mais em cima do que mais em baixo.

ESTADO EUA COM MAIS POPULAÇÃO CASOS ÓBITOS
Nova Iorque 4º  83.901 2.219
Nova Jérsia 11º 22.255    355
Califórnia 9.640 207
Michigan 10º 9.334  337
Flórida 7.773 101
Massachusetts 15º 7.738  122
Illinois 6.980 141
Luisiana 25º 6.424  273
Washington 13º 5.844 250
Pensilvânia 5.805    74
Miguel Cabral de Melo