Além da incerteza em relação ao futuro, a vida na Guiné-Conacri segue “normal” depois do golpe de Estado de domingo, com os portugueses que lá residem a poderem circular, trabalhar e a fazer o seu dia a dia sem restrições.

No dia em que o palácio da Presidência foi ocupado [domingo], ninguém saiu de casa, mas agora a situação normalizou e está tudo igual”, disse Álvaro Viana, que reside neste país há seis anos, onde trabalha no comércio de material para a construção civil.

A forças especiais guineenses lideradas pelo tenente-coronel Mamady Doumbouya capturaram o chefe de Estado, visando pôr fim à "má gestão financeira, à pobreza e à corrupção endémica" e "à instrumentalização da justiça (e) ao atropelo dos direitos dos cidadãos".

Os militares dissolveram o Governo e as instituições e aboliram a constituição que Alpha Condé tinha adotado em 2020, de modo a assegurar uma recandidatura um terceiro mandato, numas eleições que acabou por ganhar.

Após o golpe de estado e prisão do Presidente, os militares introduziram um recolher obrigatório e fecharam as fronteiras terrestres.

Mas o recolher obrigatório às 20:00 durou apenas um dia e, segundo Álvaro Viana, voltou agora às 22:00, definida como medida de contenção da pandemia de covid-19.

Este português contou que, após o golpe, foram visíveis festejos por parte de alguns grupos, mas que o dia a dia segue normal, sem restrições ou impedimentos.

Apesar desta normalidade, os portugueses não escondem alguma apreensão em relação ao que vai acontecer, pois também não têm grande informação, além daquela que vai sendo transmitida pela comunicação que os golpistas vão fazendo ao país.

Segundo Álvaro Viana, desde que o golpe aconteceu que o cônsul de Portugal o tem contactado para se inteirar da situação dos portugueses.

No domingo, o embaixador de Portugal no Senegal, Vítor Sereno, disse à Lusa que estava a acompanhar “atentamente a evolução dos acontecimentos” na Guiné-Conacri.

A comunidade está tranquila e a gerir a situação", disse então Vítor Sereno, chefe da missão diplomática de Portugal no Senegal, mas que está acreditado também para a Guiné-Conacri.

De acordo com o diplomata, na Guiné-Conacri vivem entre 50 e 60 portugueses, a grande maioria dos quais trabalha para a construtora Mota Engil.

Existe ainda uma outra empresa de relativa dimensão, na área da construção (Casa Peixoto), além de outros negócios individuais de portugueses neste país.

Durante meses, o país, que se encontra entre os mais pobres do mundo apesar dos consideráveis recursos minerais e hídricos, tem estado em profunda crise política e económica, agravada pela pandemia de covid-19.

O golpe de Estado foi já condenado pela Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO), que exigiu também a “imediata” e “incondicional” libertação de Alpha Condé, e o mesmo fez a União Africana e também a França.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também já condenou “qualquer tomada de poder pela força das armas”.

/ NM