O comité misto União Europeia (UE)-Reino Unido anunciou esta terça-feira um acordo de princípio para a implementação da saída da UE, que prevê a retirada das cláusulas controversas de uma proposta de lei que anulava partes do entendimento.

O Reino Unido irá retirar as cláusulas 44º, 45º e 47º da proposta de Lei do Mercado Interno, e não irá introduzir nenhuma provisão semelhante na lei de tributação”, refere o comunicado conjunto do comité.

A proposta de lei do Mercado Interno do Reino Unido visa substituir as normas europeias para o comércio entre as diferentes regiões do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) após a saída da UE e o Governo britânico procurava ter poderes para ignorar certas disposições que estavam no Acordo.

Estavam nomeadamente em causa questões como o preenchimento de declarações de exportação ou controlos aduaneiros entre a província britânica da Irlanda do Norte e a Grã-Bretanha, a ilha onde se encontram a Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Devido a estas cláusulas, a Comissão Europeia, a 01 de outubro, tinha decidido dar início a um procedimento de infração contra o Reino Unido.

No comunicado hoje publicado, tais questões ficam assim ultrapassadas entre os dois parceiros.

O anúncio da retirada das cláusulas foi feito num comunicado onde o comité refere que a UE e o Reino Unido chegaram a um “acordo de princípio” sobre a implementação do acordo de saída da UE.

Tenho prazer em anunciar que, graças ao trabalho árduo, Michael Gove e eu chegámos a um acordo de princípio em todos os temas relativos à implementação do acordo de saída. Isto irá garantir que [o acordo] estará totalmente operacional a partir de 01 de janeiro, incluindo o protocolo da Irlanda/Irlanda do Norte”, escreveu Sefcovic, representante da UE no comité misto, na sua conta oficial na rede social Twitter.

O comunicado conjunto refere que foi encontrado um acordo de princípio em áreas que vão do controlo de fronteiras às declarações de exportações ou fornecimento de medicamentos, sublinhando que “assegurar que o acordo de saída (…) está operacional no fim do período de transição” é uma questão “essencial”.

O ministro do Gabinete britânico e representante do Reino Unido no comité, Michael Gove, saudou o acordo, também através do Twitter.

“Contente de anunciar um acordo de princípio em todas as matérias do acordo de saída UE-Reino Unido. Obrigado a Maros Sefcovic e à sua equipa pela sua abordagem construtiva e pragmática”, escreveu Gove no Twitter.

O acordo de princípio hoje anunciado será agora submetido aos procedimentos internos tanto do Reino Unido e da UE que, uma vez terminados, permitirão a adoção, pelo comité conjunto, do acordo hoje anunciado, algo que, segundo o documento, deverá acontecer “nos próximos dias” e antes do final do ano.

À margem do acordo hoje anunciado, UE e Reino Unido tentam num derradeiro ‘sprint’ chegar a acordo sobre as relações futuras, já que a partir de 01 de janeiro de 2021 – data que coincide com o arranque da presidência portuguesa do Conselho da UE, no primeiro semestre do ano –, o Reino Unido, que abandonou o bloco europeu em janeiro de 2020, deixa de gozar do chamado período de transição, mantendo o acesso dos britânicos ao mercado único.

O negociador-chefe da UE, Michel Barnier, publicou hoje, também através da rede social Twitter, uma mensagem onde refere que, após um encontro com o Conselho dos Assuntos Gerais, que reúne o conjunto dos ministros e secretários de Estado da UE para os Assuntos Europeus, se mantém "total unidade" entre os Estados-membros da UE nas negociações com o Reino Unido.

"Total unidade. Nunca iremos sacrificar o nosso futuro pelo nosso presente. O acesso ao nosso mercado vem com condições", referiu Michel Barnier no 'tweet'.

Na ausência de um acordo (‘no deal’), as relações económicas e comerciais entre o Reino Unido e a UE passam a ser regidas pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e com a aplicação de vários controlos alfandegários e regulatórios.

Boris Johnson em Bruxelas na quarta-feira para desbloquear impasse

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou hoje que receberá o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, na quarta-feira à noite em Bruxelas para um debate decisivo sobre parceria pós-Brexit, numa altura de grande impasse nas negociações.

Estou ansiosa por dar as boas-vindas ao primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, amanhã [quarta-feira] à noite”, escreveu Ursula von der Leyen na sua conta oficial da rede social Twitter.

Na ocasião, “continuaremos a nossa discussão sobre o Acordo de Parceria”, adiantou a responsável na curta mensagem.

A publicação foi feita um dia depois de, num contacto telefónico entre Von der Leyen e Johnson, ambas as partes se terem comprometido a um encontro presencial em Bruxelas para tentar desbloquear o impasse, dado não existirem para já condições para conclusão de um acordo pós-‘Brexit.

Como acordado no sábado, fizemos um balanço das negociações em curso. Acordámos que as condições para a conclusão de um acordo não existem devido às diferenças significativas que subsistem sobre três questões críticas: igualdade de condições, governação e pescas”, frisaram os dois responsáveis numa declaração conjunta divulgada à imprensa na segunda-feira à noite.

Por essa razão, “pedimos aos nossos negociadores principais e às suas equipas que preparassem uma visão geral das diferenças remanescentes para serem discutidas numa reunião física a realizar em Bruxelas nos próximos dias”, anunciaram Ursula von der Leyen e Boris Johnson.

Este encontro presencial surge a menos de quatro semanas do final do ano e do chamado período de transição e numa altura em que não há ainda entendimento nas três matérias que têm sido as da discórdia ao longo dos últimos meses (igualdade de acesso aos mercados, governação e pescas).

Segundo algumas fontes diplomáticas, o negociador-chefe da UE para a futura relação com o Reino Unido, Michel Barnier, apontou quarta-feira como data limite para um entendimento, informação que não foi confirmada oficialmente.

Certo é que o tempo é cada vez mais escasso para as partes chegarem a um acordo, que possa ser ratificado de modo a entrar em vigor em 01 de janeiro de 2021.

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