O hacker português Rui Pinto foi um dos três vencedores do prémio europeu "Jornalistas, Denunciantes e Defensores do Direito à Informação". Julian Assange, da Wikileaks, e Yasmine Motarjem, denunciante dos lapsos de segurança alimentar da Nestlé, são os outros dois vencedores.

O prémio, que foi decidido esta terça-feira, em Estrasburgo, foi atribuído pelos eurodeputados do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde. Trata-se do quinto grupo mais numeroso do Parlamento Europeu, do qual fazem parte o PCP e o Bloco de Esquerda. Contudo, no final de março, os comunistas portugueses demarcaram-se da iniciativa.

De acordo com a organização, este prémio é dedicado a indivíduos ou grupos que foram intimidados e/ou perseguidos por descobrir informações importantes e denunciá-las ao público.

O pirata informático considerou, numa breve nota divulgada pelos seus advogados, que o prémio europeu para denunciantes que lhe foi atribuído é um reconhecimento do seu trabalho contra a corrupção no futebol.

Para o nosso constituinte Rui Pinto, que se encontra preso em Portugal desde o passado dia 22 de março, foi extremamente importante saber que os seus contributos para a transparência e para o combate à corrupção e ilegalidade no mundo do futebol são, merecidamente, reconhecidos e valorizados a nível europeu”, afirma a nota assinada pelos advogados William Bourdon e Francisco Teixeira da Mota.

Rui Pinto foi detido na Hungria e chegou a Portugal em 21 de março, com base num mandado de detenção europeu emitido pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

Na base do mandado estão acessos ilegais aos sistemas informáticos do Sporting e do fundo de investimento Doyen Sports e posterior divulgação de documentos confidenciais, como contratos de futebolistas do clube lisboeta e do então treinador Jorge Jesus, além de outros contratos celebrados entre a Doyen e vários clubes de futebol.

O colaborador do Football Leaks terá entrado, em setembro de 2015, no sistema informático da Doyen Sports, com sede em Malta, e é também suspeito de aceder ao endereço de correio eletrónico de membros do Conselho de Administração e do departamento jurídico do Sporting e, consequentemente, ao sistema informático da SAD 'leonina'.

No período em que esteve detido na Hungria, Rui Pinto assumiu ser uma das fontes do Football Leaks, plataforma digital que tem denunciado casos de corrupção e fraude fiscal no universo do futebol, no âmbito dos quais estava a colaborar com autoridades de outros países, nomeadamente, França e Bélgica.

Portugal “repressivo para denunciantes”

Rui Pinto classificou Portugal como “um país repressivo para denunciantes”, esperando mudanças com a lei aprovada para proteger estas pessoas na União Europeia (UE).

Portugal é um dos países europeus mais repressivos para os ‘whistleblowers’ [denunciantes]. Por isso, espero que a nova diretiva europeia possa mudar isto, num futuro próximo, e que dê coragem às pessoas que lutam contra a corrupção em todos os níveis”, salientou Rui Pinto.

Esta mensagem de Rui Pinto, que está preso em Portugal desde o passado dia 22 de março, foi lida na cerimónia de atribuição de um prémio europeu para denunciantes promovido pela Esquerda Unitária Europeia (GUE/NGL), do qual o ‘hacker’ português foi um dos vencedores.

A mensagem foi lida numa conferência de imprensa por outro denunciante, o auditor francês Antoine Deltour, que divulgou o escândalo financeiro LuxLeaks.

Planeei denunciar tudo este ano, mas o mandado de detenção executado por Portugal precipitou tudo, incluindo os meus esforços para estabelecer uma colaboração vital com autoridades de outros países para investigar vários crimes”, acrescentou Rui Pinto, referindo que “Portugal tentou tudo para o evitar, mas não conseguiu”.

Sobre o prémio GUE/NGL, que distinguiu “Jornalistas, denunciantes e defensores do direito à informação”, Rui Pinto disse ser “uma grande honra” recebê-lo.

E vincou que fez “isto pelas pessoas, pela verdade e pela transparência”.

As autoridades portuguesas querem pintar-me como um criminoso e descredibilizam tudo o que fiz ao expor a criminalidade no futebol e noutros setores”, lamentou.