A organização não-governamental (ONG) italiana Emergency avançou esta terça-feira que a unidade de cuidados intensivos (UCI) do Hospital Cirúrgico para Feridos de Guerra na capital do Afeganistão, Cabul, está sobrelotada há três dias.

Neste momento, só admitimos pacientes em condições muito críticas, que apresentem um verdadeiro estado de ‘choque’ e com ferimentos potencialmente mortais”, afirmou o coordenador-médico desta unidade hospitalar gerida pela ONG italiana, Alberto Zanin, numa conferência de imprensa realizada via Internet.

O representante especificou que o hospital está a tratar de 99 doentes e que conta apenas com 14 camas livres.

Desde domingo, dia marcado pela tomada dos talibãs de Cabul, 175 pessoas dirigiram-se para este hospital e pediram ajuda médica.

Algumas pessoas apresentavam ferimentos de bala, incluindo nove vítimas que chegaram já mortas ao hospital, quatro das quais tinham estado no aeroporto da capital afegã para tentar fugir do país, de acordo com Alberto Zanin.

A representação italiana do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) indicou hoje que, atualmente, 400 mil pessoas (das quais metade são crianças) estão a tentar fugir do Afeganistão.

“Durante a noite, ouvimos várias rajadas de [armas automáticas] Kalashnikovs, nenhuma explosão, mas rajadas de tiros nas proximidades", relatou Alberto Zanin, contando ainda que há "muito menos trânsito e muito menos gente na rua" em comparação a segunda-feira.

No perímetro do Hospital Cirúrgico para Feridos de Guerra está montado um posto de controlo talibã com elementos armados, com a ONG Emergency a indicar que, até ao momento, não recebeu qualquer ferido ligado a incidentes que envolvam este posto.

Alberto Zanin esclareceu ainda que, até agora, o trabalho daquela unidade hospitalar não foi ameaçado ou condicionado pelos radicais islâmicos.

Temos o contacto do novo responsável pela área de saúde da cidade, com quem vamos tentar marcar um encontro nos próximos dias", referiu o médico.

Após uma ofensiva relâmpago, os talibãs tomaram Cabul no domingo, o que assinalou o seu regresso ao poder no Afeganistão, 20 anos depois de terem sido expulsos pelas forças militares estrangeiras (Estados Unidos da América e NATO).

As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista, que acolhia no seu território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001.

Depois de terem governado o país de 1996 a 2001, impondo uma interpretação radical da ‘sharia’ (lei islâmica), teme-se agora que os radicais voltem a impor um regime de terror, nomeadamente ao nível dos diretos fundamentais das mulheres e das raparigas.

De momento, segundo frisou o representante da ONG Emergency, não foram notadas quaisquer mudanças a este respeito, seja nos doentes admitidos, seja nos profissionais em exercício de funções.

“Vê-se mulheres na rua, como antes. Uma grande parte da nossa equipa é do sexo feminino porque a organização sempre decidiu estabelecer quotas. Vêm trabalhar de uma forma normal, como antes, e muitos delas ocupam posições de muita responsabilidade. Muitas são anestesistas”, concluiu Zanin.

/ RL