O Departamento de Estado norte-americano disse esta terça-feira que os Estados Unidos estão prontos para manter presença diplomática em Cabul, frisando esperar que os talibãs "cumpram" as suas promessas relativamente aos direitos humanos no Afeganistão.

Se [a situação] for segura, e se for responsável para nós ficarmos mais tempo, podemos olhar para isso", sublinhou o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, questionado numa conferência de imprensa em Washington sobre a possibilidade de a diplomacia norte-americana manter uma presença em Cabul.

Caso haja condições, o mesmo responsável assegurou que os EUA estão prontos para manter presença diplomática em Cabul, no Aeroporto, depois de 31 de agosto, para quando está prevista a saída do país dos últimos militares norte-americanos.

Um porta-voz dos talibãs prometeu, esta terça-feira, que o movimento radical islâmico, que conquistou o poder no país nos últimos dias, vai proteger o Afeganistão, garantindo que não são movidos por qualquer desejo de vingança.

Apesar das promessas, a maioria da população mantém-se cética, com as gerações mais velhas a recordarem nitidamente o ultraconservadorismo islâmico defendido pelos talibãs nos anos 1990, incluindo as severas restrições às mulheres, os apedrejamentos e amputações públicas e o isolamento em relação ao resto do mundo.

Na conferência de imprensa no Departamento de Estado, Ned Price sublinhou que, "se os talibãs disserem que vão respeitar os direitos dos seus cidadãos", Washington "espera que estejam à altura desse compromisso".

O vice-presidente deposto do Afeganistão, Amrullah Saleh, declarou-se esta terça-feira presidente legítimo do país, devido à fuga do ex-chefe de Estado no domingo, e prometeu não se submeter aos talibãs.

O antigo chefe dos espiões do país, inimigo dos islamistas, que domingo tomaram o poder em Cabul, retirou-se para a última região ainda não controlada pelos talibãs: o Vale Panchir, a nordeste da capital.

Não vou dececionar os milhões de pessoas que me ouviram. Nunca estarei sob o mesmo teto que os talibãs", escreveu na rede social Twitter no domingo, pouco antes de se esconder.

No dia seguinte, foram publicadas nas redes sociais imagens de Amrullah Saleh e Ahmad Massoud, o filho do famoso comandante Ahmed Shah Massoud, assassinado em 2001 pela Al-Qaeda, no Vale do Panchir, à beira do maciço do Hindu Kush.

Os dois homens parecem estar a lançar as bases do que seria uma rebelião contra o novo regime, uma vez que homens armados começaram a reagrupar-se em Panchir.

Os talibãs conquistaram Cabul no domingo, culminando uma ofensiva iniciada em maio, quando começou a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO.

As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista (1996-2001), que acolhia no seu território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

A tomada da capital põe fim a uma presença militar estrangeira de 20 anos no Afeganistão, dos Estados Unidos e dos seus aliados na NATO, incluindo Portugal.

Face à brutalidade e interpretação radical do Islão que marcou o anterior regime, os talibãs têm assegurado aos afegãos que a “vida, propriedade e honra” vão ser respeitadas e que as mulheres poderão estudar e trabalhar.

/ CE