A operação militar lançada pela Turquia contra uma milícia curda no nordeste da Síria levou ao deslocamento de 300 mil pessoas em oito dias, indicou hoje o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

"Mais de 300 mil civis foram deslocados desde o início da ofensiva a 9 de outubro", disse Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório, que tem uma extensa rede de fontes naquele país em guerra.

Segundo Rahman, a maioria dos civis teve de fugir dos combates na província de Hassaké, na região de Kobane (província de Aleppo) e na província de Tal Abyad (província de Raqa).

Muitas pessoas deslocadas encontraram abrigo em áreas mais seguras, outras dormiram sob as estrelas em pomares no campo.

Quarenta escolas na província de Hassake foram transformadas em abrigos para pessoas deslocadas, segundo o Observatório.

Em 9 de outubro, a Turquia, com a ajuda de deputados sírios, lançou uma ofensiva em áreas controladas pelos curdos no nordeste da Síria, após a retirada das forças americanas.

Dezenas de civis, a maioria curdos, foram mortos desde o início da ofensiva, que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan se recusa a interromper, apesar do aumento da pressão internacional.

No início do mês, o Presidente norte-americano Donald Trump anunciou a retirada das tropas norte-americanas da Síria, onde lutavam contra o Estado Islâmico ao lado das milícias curdas, que ficaram à mercê de um ataque da Turquia, que as considera um grupo terrorista.

A decisão do Presidente foi muito criticada, dentro e fora dos Estados Unidos, e até pelos seus mais próximos apoiantes no Partido Republicano, com acusações de ter traído os seus aliados, que se viram obrigados a pedir ajuda ao Governo da Síria e da Rússia.

Poucos dias depois de ter anunciado a retirada das tropas da Síria, Trump justificou o abandono, dizendo que os curdos não tinham ajudado os aliados na luta contra o regime nazi, na II Guerra Mundial, durante o Dia D (do desembarque na Normadia).

A Turquia tem atacado posições curdas no nordeste da Síria para tentar criar uma zona livre das milícias e anunciou que não desistirá da ofensiva, apesar dos apelos da comunidade internacional e da ajuda do Governo sírio que já se instalou na região.

Curdos acusam Ancara de utilizar armas proibidas

As autoridades curdas na Síria acusaram a Turquia de recorrer a armas não convencionais, como o fósforo branco ou o napalm, na sua ofensiva no norte do país em guerra.

As acusações visando as forças de Ancara ou os rebeldes sírios pró-turcos não puderam ser confirmadas de modo independente, indica a agência France-Presse.

Desde o lançamento, a 9 de outubro, da sua ofensiva contra uma milícia curdo-síria, as forças turcas conquistaram uma faixa fronteiriça de 120 quilómetros no norte sírio e os combates concentram-se atualmente na cidade de Ras al-Ayn.

“Em violação flagrante da lei e dos tratados internacionais, a agressão turca contra (Ras al-Ayn) é realizada com todo o tipo de armas”, criticou hoje num comunicado a administração semi-autónoma curda.

“Face ao fracasso evidente do seu plano, (o presidente turco Recep Tayyip) Erdogan recorreu a armas proibidas internacionalmente, como o fósforo ou o napalm”, sublinha o comunicado.

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que dispõe de uma vasta rede de fontes no terreno, não conseguiu confirmar a utilização daquelas armas.

Mas a ONG “registou vítimas de queimaduras que chegaram ao hospital de Tal Tamr nos dois últimos dias”, indicou à AFP o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahmane, referindo uma localidade próxima de Ras al-Ayn.

Segundo o observatório, as forças turcas já controlam metade de Ras al-Ayn.

Ao longo do conflito que devasta a Síria desde 2011, o termo napalm tem sido utilizado para descrever bombas incendiárias fabricadas com base em substâncias semelhantes ao napalm.

O fósforo branco pode ser utilizado para criar uma cortina de fumo, mas pode também servir para fabricar armas incendiárias, cuja utilização é proibida pela lei internacional.

Responsáveis curdos divulgaram nas redes sociais um vídeo com crianças com queimaduras que, segundo um médico da província de Hassaké, podem corroborar a utilização de tais armas.

“Apelamos às organizações internacionais para enviaram equipas para analisar os ferimentos”, disse Mustafa Bali, um porta-voz das Forças Democráticas Sírias (FDS, coligação dominada pelas forças curdas).

“As instalações médicas no nordeste sírio não têm especialistas depois da retirada das ONG devido à invasão turca”, adiantou.

A ofensiva turca já causou pelo menos 72 mortos entre os civis da Síria e 203 entre os combatentes das FDS, segundo um último balanço do OSDH.

 

Turquia diz que Rússia prometeu tirar milícias curdas sírias das zonas fronteiriças

A Rússia prometeu à Turquia que irá garantir a retirada das milícias curdas sírias que permanecem próximo da sua fronteira, consideradas “terroristas” por Ancara e alvo da sua intervenção militar, assegurou esta quinta-feira o chefe da diplomacia turca.

A Rússia prometeu que as Unidades de Proteção do Povo [YPG, as milícias curdas sírias] não estarão do outro lado da fronteira”, referiu Mevlüt Çavusoglu em entrevista à BBC em Ancara.

No domingo, as milícias curdas chegaram a acordo com as forças leais ao Presidente sírio Bashar al-Assad, que recebe o apoio do Kremlin, para travar a incursão militar turca no nordeste sírio, iniciada em 09 de novembro com o objetivo de criar uma “faixa de segurança” com 30 quilómetros de profundidade, e onde eventualmente Ancara pretende instalar parte dos cerca de três milhões de refugidos sírios.

Se a Rússia, acompanhada pelo exército sírio, eliminar as YPG da região, não nos oporemos”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros turco.

Uma delegação de Moscovo, liderada pelo enviado russo para a Síria Aleksandr Lavrentyev, reuniu-se hoje em Ancara com o porta-voz da presidência turca, Ibrahim Kalin, para abordar a situação no nordeste da Síria.

Os dois países concordaram em impedir a ameaça que representam todos os grupos terroristas, incluindo as YPG e o [grupo ‘jihadista’] Estado Islâmico], asseguraram fontes da presidência à agência Anadolu.

No encontro foram ainda abordados os últimos acontecimentos na cidade de Idlib e na região de Minbej, a leste do Eufrates, para onde foram deslocadas as forças governamentais sírias para forçar a retirada do exército turco da região.

Esta iniciativa diplomática coincidiu com a chegada a Ancara do secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo, e do vice-presidente Mike Pence, onde foram recebidos pelo Presidente turco Recep Tayyip Erodgan, para negociar um possível cessar-fogo no nordeste da Síria.

Erdogan disse na quarta-feira que a ofensiva militar contra os curdos sírios – onde participam como “guarda avançada” grupos rebeldes árabes treinados e armados pelos turcos – caso as milícias curdas locais se desarmem e retirem para o exterior da faixa de território junto à fronteira turca, que para além dos 30 quilómetros de largura deverá possuir 480 quilómetros de comprimento.

Em paralelo, o Kremlin revelou hoje que o Presidente Vladimir Putin vai abordar problemas humanitários decorrentes da operação militar turca no nordeste da Síria quando se encontrar com o seu homólogo da Turquia na próxima semana.

Putin manifestou preocupação pelas “possíveis consequências humanitárias desta operação” no decurso de uma recente conversa telefónica com Erdogan.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse hoje que o balanço da operação militar turca, que entrou no nono dia, “será um importante tema na agenda das conversações”. Os dois líderes deverão encontrar-se na terça-feira.

Peskov assinalou ainda estar surpreendido com o tom severo da carta enviada recentemente pelo Presidente dos EUA Donald Trump a Erdogan, e onde adverte o chefe de Estado turco para não ser “um tipo duro”.

Esta linguagem não é encontrada muitas vezes na comunicação entre líderes de Estados. É uma carta muito pouco habitual”, sublinhou Peskov.