Um grupo técnico ligado ao Ministério da Saúde brasileiro reprovou, pela primeira vez, o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19 em ambientes hospitalares, como cloroquina ou ivermectina, noticiou na segunda-feira a imprensa local.

O documento técnico foi obtido pelos jornais Folha de S.Paulo e O Globo e já recebeu parecer favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que analisa a inclusão de medicamentos e protocolos de tratamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), e que abriu uma consulta pública ao texto nesta segunda-feira.

Esta é a primeira vez, desde o início da pandemia, que há um posicionamento contrário em relação ao uso desses fármacos por parte de um órgão ligado ao Ministério da Saúde brasileiro.

Em causa está a desaprovação de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, amplamente defendidos pelo Presidente, Jair Bolsonaro, no tratamento da covid-19, mas sem eficácia nesse sentido.

Segundo o documento, focado no uso hospitalar, não há evidências de que essas medicações, isoladas ou em conjunto com outros remédios, beneficiem o tratamento da doença causada pelo novo coronavírus.

Denominado "Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com Covid-19", o parecer teve a coordenação do pneumologista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Carvalho, segundo a imprensa local.

De acordo com o texto, poucas terapias farmacológicas mostraram-se eficazes na análise para tratamento da covid-19.

"À exceção de corticoesteroides e do tocilizumabe, ambos em pacientes com uso de oxigénios suplementar, não há outras terapias que mostraram benefício na prevenção de desfechos clinicamente relevantes como mortalidade e evolução para ventilação mecânica", indica-se no documento, citado pela Folha de S.Paulo.

A recomendação de medicamentos sem eficácia por parte do Governo de Bolsonaro é um dos alvos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado brasileiro, que investiga falhas na gestão da pandemia no Brasil.

Em depoimento na CPI, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que aguardava este parecer para decidir a orientação da tutela e que os médicos se dividiam em relação ao uso desse fármaco.

A cloroquina, por exemplo, é um remédio usado contra doenças como malária e lúpus, mas que é ineficaz contra a covid-19, embora a sua prescrição seja amplamente defendida por Bolsonaro e pelos seus apoiantes desde o ano passado.

O Presidente brasileiro, que assumiu ter sido infetado pelo novo coronavírus em julho, declarou à época que tomou o medicamento e atribuiu-lhe a responsabilidade pela sua cura.

No entanto, inúmeros estudos demonstraram que a substância é ineficaz no combate ao vírus SARS-CoV-2, causador da doença.

O Brasil, um dos países mais afetados pela pandemia em todo o mundo, totaliza 436.537 óbitos e 15.657.391 infeções.

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.381.042 mortos no mundo, resultantes de mais de 162,9 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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