O secretário-geral da Organização das Nações Unidas pediu esta quarta-feira, no Conselho de Segurança, que a solidariedade e um sentido de “vulnerabilidade” norteiem a recuperação da crise e dos conflitos em África, destacando a violência em Moçambique.

Um sentimento de vulnerabilidade compartilhada deve traduzir-se num propósito comum enquanto nos esforçamos para superar a fragmentação e o nacionalismo; abordar as raízes, causas e fontes de conflito e crise; moldar uma recuperação forte; e construir um futuro melhor para todos”, disse António Guterres ao Conselho de Segurança.

O secretário-geral da ONU inaugurou um debate aberto de alto nível, por videoconferência, dedicado ao tema "Abordar as causas profundas dos conflitos promovendo simultaneamente a recuperação pós-pandémica em África" com exemplos de violência armada em Moçambique e na África Central e Ocidental.

Grupos extremistas violentos na África Ocidental e Central e em Moçambique, incluindo aqueles associados à al-Qaida e ao Estado Islâmico, continuaram e até aumentaram ataques hediondos contra civis, criando grandes desafios adicionais para sociedades e governos”, lamentou o antigo primeiro-ministro português no início do discurso perante o Conselho de Segurança.

Apesar do apelo do secretário-geral para um cessar-fogo global, para responder à pandemia, notou-se a “violência crónica contínua em alguns países e o ressurgimento de velhos conflitos em outros”.

“Os recentes ataques em Cabo Delgado e a crescente insegurança causada pelas Forças Democráticas Aliadas no leste da República Democrática do Congo são lembretes trágicos desta grave ameaça”, considerou Guterres.

O secretário-geral relatou o “ambiente complexo de paz e segurança” que se sente em muitas comunidades e países do continente africano, agravado por “desigualdades; pobreza e insegurança alimentar; degradação ambiental; urbanização e pressões demográficas”.

Segundo a ONU, a pandemia de covid-19 colocou mais 114 milhões de pessoas na pobreza extrema.

Dado o grave impacto da pandemia de covid-19 nas mulheres e nos jovens, o secretário-geral da ONU evocou algumas condições imprescindíveis “para os países saírem da armadilha do conflito e entrarem firmemente no caminho da paz e do desenvolvimento sustentável”.

Entre as condições citadas, Guterres sublinhou “garantir oportunidades iguais, proteção social, acesso a recursos e serviços e participação inclusiva e significativa na tomada de decisões”, para todos, especialmente jovens e mulheres.

“A perda de oportunidades de educação, emprego e rendimentos gera um sentimento de alienação, marginalização e ‘stress’ mental que pode ser explorado por criminosos e extremistas”, alertou Guterres, enunciando o “severo impacto da pandemia sobre os jovens, especialmente na África, o continente [com população] mais jovem”.

O secretário-geral da ONU não esqueceu as dificuldades e atrasos na recuperação em África causados pela desigualdade na distribuição de vacinas contra a covid-19 e a “falta de resposta” das economias mais fortes: “De 1,4 mil milhões de doses administradas em todo o mundo hoje, apenas 24 milhões chegaram à África - menos de dois por cento”, disse.

Após destacar plataformas dedicadas à distribuição equitativa de vacinas como ACT-Accelerator ou Covax e iniciativas no plano económico e financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI) ou do grupo G20, Guterres considerou: “A longo prazo, temos urgentemente de fortalecer e reformar a arquitetura internacional da dívida”.

Guterres considerou que a “recuperação da pandemia oferece uma oportunidade para abordar as causas profundas dos conflitos, colocar a prevenção na vanguarda de todos os esforços e implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2063 da União Africana”.

O debate do Conselho de Segurança foi organizado pela China, país que preside a este órgão da ONU durante o mês de maio, e presidido pelo ministro de Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi.

A reunião para abordar a situação em África prosseguiu com intervenções do presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat e do administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Achim Steiner.

. / JGR