Habitantes do bairro de Díli, onde no domingo três jovens foram mortos por disparos de polícias fora de serviço, cortaram hoje a rua principal em protesto, deixando críticas e insultos escritos nas paredes de vários edifícios.

Ao início desta manhã, jovens do bairro de Kuluhun fecharam a estrada, de forma rudimentar, com algumas pedras, fitas de plástico e um caixote de lixo de metal onde, como nas paredes de vários edifícios da zona, se podem ler insultos e críticas à polícia.

"Kuluhun de Baico Anti-Policia" e "Não usem as armas contra o povo" são algumas das frases que se juntam aos insultos, também multiplicados nas redes sociais, onde o incidente gerou uma onda de condenação e critica.

Um protesto digital ampliado com denúncias de situações, em vários pontos do país e em várias circunstâncias, em que polícias armados fora de serviço dispararam tiros para o ar, ou recorreram à arma de serviço para incidentes privados.

Também nas redes sociais são repetidos os apelos para que a PNTL desarme todos os agentes fora de serviço e garanta um maior controlo dos agentes.

O incidente na madrugada de domingo envolveu pelo menos dois agentes da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), fora de serviço, que efetuaram disparos numa festa no bairro, dos quais resultaram três mortos e três feridos graves.

"Alguns jovens começaram a discutir e outros jovens tentaram acalmar as coisas. A situação fica tensa e um polícia que estava lá, à civil, disparou para o ar. Veio outro polícia e disparou para as pessoas", disse à Lusa João Noronha, residente do bairro.

Outra testemunha, que pediu o anonimato, descreveu o que disse ter sido o comportamento "à cowboy" de um dos polícias.

"Um disparou para o ar, mas o outro subiu para uma cadeira, continuou com calma a fumar e disparou diretamente para as pessoas. À cowboy", contou a testemunha, que se encontrava na festa.

Quatro polícias timorenses, dois que dispararam e dois outros que estavam no mesmo local também armados, foram detidos, "desfardados, desarmados e suspensos preventivamente durante 90 dias", declarou à Lusa o comandante da PNTL, Julio Hornay.

"Serão apresentados em 72 horas. Estamos à espera que todo o processo inicial seja concluído", indicou hoje à Lusa.

Acompanhado de vários elementos do comando da PNTL, Hornay esteve com as famílias das vítimas mortais, tendo em seguida visitado os feridos ainda internados no Hospital Nacional Guido Valadares, a quem prometeu apoio.

"A responsabilidade moral, como comando é apoiar as famílias neste momento. Vamos dar todo o apoio necessário", afirmou.

Duas das vítimas mortais, Leo, de 18 anos, e Eric, de 24, deixaram mulheres e filhos pequenos. Kevin, 18 anos, solteiro, foi a terceira vítima. Todos vizinhos, todos de um mesmo bairro, onde hoje a tensão e a contestação eram visíveis.

Em três casas estão já a ser preparados velórios que só vão começar depois de concluídas as autópsias, necessárias para as investigações criminais. Até lá, mantém-se a tensão, apesar de não terem registado ainda quaisquer incidentes.

"Agradeço aos jovens de Kuluhun de Baixo que se estejam a manter calmos. Vamos esperar pela ação da polícia e do tribunal", disse Hornay.

"Eles querem decisões mais fortes perante os indivíduos da PNTL que fizeram isto. Expliquei que ações já tomámos, mas temos que esperar o processo criminal. Cada um, quando usa armas, só pode usá-las em serviço. Vamos agir de forma forte perante esta situação", considerou.

Comandantes de agentes devem responder 

Os comandantes de polícias fora de serviço que mataram os três jovens têm que responder pelo caso, declarou hoje o ministro da tutela.

"A lei e os regulamentos são muito claros. O último foi um despacho emitido em 2016 em que expressamente se exige que ninguém que não esteja em serviço saia com as armas", disse à Lusa o ministro interino do Interior e Segurança e ministro da Defesa, Filomeno Paixão.

"Neste caso os quatro estavam fora de serviço e levavam armas. Eu, pessoalmente, digo que os comandantes têm que responder", afirmou.

Partidos condenam ação

Os partidos políticos timorenses condenaram a ação dos agentes que mataram a tiro três jovens e defenderam medidas para controlar o uso e porte de arma pela polícia.

Numa curta nota publicada na página da rede social Facebook, a Aliança de Mudança para o Progresso (AMP), a coligação governamental, disse que "lamenta e condena a ação de brutalidade de um indivíduo da PNTL contra jovens inocentes".

A AMP defendeu que a PNTL deve atuar para controlar melhor o uso de armas e para "impor disciplina" entre as suas fileiras, no âmbito de um processo mais amplo de reforma de procedimentos.

Na nota, a AMP pediu que as forças e líderes políticos não tirem "proveito político da situação com o intuito de provocar instabilidade", o que pode causar mais problemas à população, e defendeu que se aguardem os resultados da investigação.

Em comunicado, a bancada da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), o maior partido da oposição, disse que "condena todos os atos de violência, principalmente violência cometida por agentes de segurança e defesa do Estado contra o povo timorense".

"A bancada parlamentar da Fretilin exige que as autoridades competentes investiguem o acontecimento, e que este acontecimento sirva também de lição para que se faça uma reforma profunda das instituições de segurança e defesa de Estado, de forma a evitar que tais atos se repitam no future", afirmou o deputado Marito Mota, citado em comunicado.

"Como jovem, eu exijo que os suspeitos sejam processados judicialmente e esperamos que a pena implementada seja adequada", sublinhou a deputada Nelia Menezes.

Ao lembrar que o caso de domingo "não é o primeiro do género", a Fretilin pediu ao primeiro-ministro "que nomeie rapidamente o ministro de Interior para que o Presidente da República emposse".

"Com o acontecimento em Kuluhun, nota-se a necessidade reforçada em Timor-Leste por um ministro que seja competente e saiba liderar a reforma no setor de segurança, principalmente na PNTL", disse.

O ministro do Interior é um dos membros do Governo indigitado pelo primeiro-ministro timorense, Taur Matan Ruak, mas a quem o Presidente de Timor-Leste recusou, até agora, dar posse.

Taur Matan Ruak tem prevista hoje uma reunião com o ministro interino do Interior e ministro da Defesa, Filomeno Paixão, e com o comandante da PNTL, Julio Hornay, que hoje visitou familiares das vítimas mortais e os feridos ainda hospitalizados.