A era Trump fez disparar as vendas de um clássico da literatura escrito há quase 70 anos. O romance “1984”, de George Orwell, chegou ao número um de vendas da Amazon, nos Estados Unidos, depois de os “factos alternativos” da Casa Branca terem causado polémica esta semana.

Quando escreveu "1984", nos anos 40, Orwell não pensava numa sociedade futurista, mas antes nos regimes totalitários do século XX, numa altura em que o estalinismo se tinha afirmado na União Soviética. Era uma metáfora sobre as políticas ditatoriais de então.

Mas agora, em pleno tempo da presidência de Donald Trump, as referências a esta obra emblemática têm-se multiplicado e vários excertos do romance tornaram-se virais nas redes sociais. Muito por causa da polémica em torno dos “factos alternativos” da Casa Branca.

É que “1984" descreve precisamente uma sociedade que vive sob um regime político totalitário e repressivo, em que os factos são distorcidos e suprimidos numa nuvem de "noticiários".

Mas como surgiram os "factos alternativos" de Trump?

Após a tomada de posse, na sexta-feira, a administração Trump declarou que a cerimónia tinha sido a mais vista de sempre e que cerca de um milhão e meio de pessoas estiveram no local, no Mall de Washington. Mas as imagens mostravam precisamente o contrário: a tomada de posse de Trump não tinha registado a enchente verificada, por exemplo, com Barack Obama.

No domingo, a conselheira de Trump, Kellyanne Conway, foi ao programa “Meet The Press” da NBC reafirmar os números da Casa Branca. Conway disse que a Casa Branca estava na posse de “factos alternativos”. O apresentador, Chuck Todd, depressa respondeu que “factos alternativos não são factos, são falsidades”.

Ora, os “factos alternativos” da Casa Branca depressa começaram a correr as redes sociais, dando origem a piadas e a memes.

E no meio da imensidão de posts sobre o assunto, várias referências a "1984" tornaram-se virais em fóruns e nas redes sociais.

Embalada pela polémica, a obra viu as suas vendas dispararem e atingirem o número um da Amazon esta semana, nos Estados Unidos, superando vários best-sellers.

Entretanto, a editora Penguin anunciou que já mandou imprimir 75 mil cópias do livro para dar resposta à súbita procura.

De resto, o livro de Orwell não é o único título visionário a subir no top 100 da Amazon: o romance “It Can't Happen Here”, de Sinclair Lewis, publicado em 1935, sobre a eleição de um presidente autoritário, ascendeu ao 46.º lugar, e o “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, subiu ao 71.º, desde a passada sexta-feira. O aumento de vendas também se refletiu no ensaio de Hannah Arendt "As origens do totalitarismo".

Sofia Santana