O chefe da polícia da Malásia confirmou, esta quarta-feira, que houve pelo menos uma tentativa para entrar no edifício onde está o corpo do meio- irmão do líder da Coreia do Norte, noticia a agência Reuters. Kim Jong-nam foi assassinado no dia 13 de fevereiro no aeroporto de Kuala Lumpur por três pessoas, duas mulheres e um homem, que lhe lançaram um líquido alegadamente venenoso.

"Sabemos que houve tentativas para entrar na morgue. Tivemos de tomar precauções. Não vamos permitir que ninguém interfira com o local", afirmou Khalid Abu Bakar, chefe da polícia malaia citado pelo jornal britânico The Guardian.

Na terça-feira, guardas malaios armados estavam a proteger o cadáver. Uma coluna de quatro veículos entrou no hospital durante a madrugada, com cerca de 30 membros das forças especiais malaias que garantiram a segurança na área antes de deixarem o local a meio da manhã.

Diplomata e funcionário de transportadora aérea norte-coreana para interrogatório

O chefe da polícia anunciou também esta quarta-feira que as autoridades pretendem interrogar um diplomata norte-coreano e um funcionário das linhas aéreas de Pyongyang pelo alegado envolvimento no assassínio de Kim Jong-nam. A polícia suspeita de cinco norte-coreanos e procura outros três para serem questionados.

Entre os procurados está Hyon Kwang Song, de 44 anos, segundo secretário da embaixada de Pyongyang em Kuala Lumpur, e Kim Uk Il, de 37 anos, funcionário norte-coreano da transportadora aérea estatal Air Koryo, disse Khalid Abu Bakar aos jornalistas.

“Escrevemos ao embaixador para que permita que entrevistemos os dois. Esperamos que a embaixada norte-coreana coopere connosco e permita que os entrevistemos rapidamente. Se não, vamos obrigá-los a vir até nós”, afirmou, citado pela Reuters.

Khalid indicou que a polícia acredita que cinco norte-coreanos estiveram “altamente envolvidos” na morte de Kim – quatro homens fugiram do país no dia do crime enquanto um permanece detido na Malásia.

O chefe da polícia disse que duas mulheres também detidas pelo assassínio sabiam que estavam a participar num ataque com veneno, após notícias de que acreditavam ser uma partida.

“Sim, claro que sabiam”, afirmou Khalid quando questionado por jornalistas sobre se as mulheres tinham conhecimento que transportavam uma substância tóxica quando abordaram Kim Jong-nam.

“Viram o vídeo, certo? A mulher estava a afastar-se com as mãos na direção da casa de banho. Estava bem consciente de que era tóxico e de que precisava de lavar as mãos”, garantiu.

Khalid disse que a vietnamita Doan Thi Huong, de 28 anos, e a indonésia Siti Aishah, de 25, tinham sido treinadas para esfregar o rosto do homem, praticando em Kuala Lumpur o exercício que viriam a aplicar no aeroporto.

A polícia indonésia tinha dito anteriormente que a suspeita tinha sido enganada e acreditava que participava num programa televisivo de “apanhados”.

De acordo com a Reuters, a embaixada norte-coreana em Kuala Lumpur defendeu esta quarta-feira que os três suspeitos já detidos devem ser libertados de imediato.

Uma mulher vietnamita, uma indonésia e um homem norte-coreano forma "presos de injustificada", declarou a embaixada, em comunicado.

Conflito diplomático

O corpo de Kim Jong-nam tem estado no centro de um conflito diplomático entre Pyongyang e a Malásia, depois de a Coreia do Norte insistir que seja devolvido e de se ter oposto à autópsia. A Malásia rejeitou o pedido, dizendo que os restos mortais devem ficar na morgue até um membro da família os ir identificar com uma amostra de ADN.

No início desta semana, a Malásia convocou o seu embaixador na Coreia do Norte e chamou o enviado de Pyongyang a Kuala Lumpur para discutir o conflito no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O primeiro-ministro malaio Najib Razak repreendeu o embaixador da Coreia do Norte por fazer comentários "diplomáticos grosseiros",

Kang Chol lançou críticas à investigação da morte Kim Jong-nam, dizendo que é politicamente motivada e que a Malásia conspirou com a Coreia do Sul para culpar o Norte.

As declarações do embaixador norte-coreano também não agradaram ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Malásia, Anifah Aman, que se sentiu "profundamente insultado" pelas acusações, baseadas em "delírios, mentiras e meias verdades".

Kim Jong-nam, de 45 anos, é o nome mais importante que foi assassinado sob o regime de Kim Jong-un desde a execução do tio do líder, Jang Song-Thaekm, em 2013. As duas vítimas seriam bastante próximas uma da outra. 

Kim Jong-nam, filho mais velho do falecido líder da Coreia do Norte Kim Jong-Il, pediu ao meio-irmão Kim Jong-Un, atual líder do país, que lhe poupasse a vida e a da família depois de ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato em 2012.

Kim Jong-nam passava muito tempo fora da Coreia do Norte e já tinha contestado publicamente o regime ditatorial do meio-irmão.

Aline Raimundo Andreia Miranda / com Lusa