O governo chinês afirmou esta quinta-feira que a população da China aumentou em 2020, reagindo a informações de que o último censo tinha revelado um declínio demográfico, suscetível de colocar pressão sobre o crescimento económico.

O Gabinete Nacional de Estatísticas não forneceu dados detalhados sobre a população, afirmando que serão divulgados mais tarde.

A decisão inusual de reagir a uma notícia do jornal Financial Times reflete, no entanto, a sensibilidade política da questão.

O jornal cita pessoas familiarizadas com o censo de 2020 segundo as quais os resultados devem mostrar que a população diminuiu, pela primeira vez em cerca de 60 anos, para menos de 1,4 mil milhões de habitantes.

A confirmar-se, seria a primeria queda populacional desde que milhões de pessoas morreram em consequência do Grande Salto em Frente, uma campanha lançada pelo fundador da República Popular da China, Mao Zedong, em 1959, para "acelerar a transição para o comunismo", através da coletivização dos meios de produção.

A China praticou um rígido controlo de natalidade entre 1980 e 2016, em nome da preservação de recursos escassos para a sua economia em expansão.

A queda na taxa de natalidade é vista agora, no entanto, como grande ameaça ao progresso económico e à estabilidade social no país asiático.

Estimativas chinesas apontam que a população do país deve atingir o pico em 2025, seguindo-se uma queda demográfica, mas um declínio precoce aumentaria os desafios para os líderes chineses.

Pequim está a encetar uma transição no modelo económico do país, visando uma maior preponderância do setor dos serviços e do consumo, em detrimento das exportações e construção de obras públicas.

De acordo com o nosso entendimento, em 2020, a população da China continuou a crescer", disse o GNE, em comunicado difundido no portal oficial.

Economias desenvolvidas, como o Japão e a Alemanha, também estão a tentar lidar com o envelhecimento da população e a consequente redução da força de trabalho.

Mas estes países beneficiam de décadas de investimento em fábricas, tecnologia e ativos estrangeiros, enquanto a China tem menos riqueza e as suas indústrias necessitam de trabalhadores jovens.

Investigadores do banco central da China argumentaram num relatório difundido em março que a taxa de natalidade é menor do que as estimativas oficiais sugerem, embora não tenham dito que a população estava em declínio.

Quando a população entrar em crescimento negativo, vai ocorrer uma escassez da procura", apontou Cai Fang, membro do comité de política monetária do banco central.

O mesmo responsável afirmou que, se as pessoas em idade ativa enfrentam o fardo financeiro adicional de cuidar dos parentes idosos, enquanto tentam criar uma família, tornam-se mais propensas a poupar do que a consumir.

"Os custos associados com a gravidez, criação e educação dos filhos são os maiores constrangimentos para os casais jovens", observou Cai.

"Em comparação com os países desenvolvidos, a transição demográfica aconteceu mais depressa no nosso país. O período de transição é mais curto e os problemas de envelhecimento e fertilidade são mais graves", lê-se no relatório.

A proporção de idosos entre a população total subiu de 7% para quase 13%, entre 2000 e 2019, e deve chegar a 14% em 2022.

A população da China aumentou em 4,7 milhões de pessoas, em 2019, para pouco mais de 1,4 mil milhões, de acordo com dados do governo. Foi um crescimento de apenas 0,3%.

O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia da China cresça 8,4% este ano, após o país ter contido a epidemia do novo coronavírus.

O Partido Comunista Chinês estabeleceu como objetivo dobrar o PIB (Produto Interno Bruto) per capita até 2035, em relação aos níveis de 2020, o que exigiria um crescimento anual médio de cerca de 4,7%.

/ AG