O cálculo é simples para Donald Trump: se a China construiu uma muralha com cerca de 21 mil quilómetros, o que são 3144 quilómetros de muro entre Estados Unidos e México se não “amendoins”?, respondeu, numa das muitas vezes em que foi questionado sobre como levaria a cabo uma obra dessa dimensão, sem nunca, até hoje, explicar como.

Pois bem, estes “amendoins”, para se ter uma ideia, são do tamanho de uma viagem de carro entre Lisboa e Budapeste, o mesmo que 20 muros de Berlim, 56 subidas ao Evereste, 300 campos de futebol, 26 vezes o muro mais comprido da Europa (a Muralha de Adriano, em Inglaterra), um sétimo da Grande Muralha da China, a estrutura-exemplo para Trump de que não há impossíveis.

O polémico muro, e não vedação, que Trump idealiza “lindo” e “impenetrável” terá, agora, depois de atualizados os cálculos, afinal, apenas 1000 milhas (1609 quilómetros) e não 1300, que a natureza ajudará a completar, como, aliás, o faz já, seja por rio ou por montanha. Ou seja, a viagem de carro foi encurtada de Budapeste para Paris.

Mas é esta uma obra executável? Tecnicamente sim, dizem os especialistas, até porque o problema não está em como construir o muro mas sim em como construir o muro numa extensão em grande parte inóspita. É que a maior parte da fronteira dos EUA com o México atravessa quatro estados – Califórnia, Arizona, Novo México e Texas -, o deserto, parques naturais, florestas, reservas de índios, diferentes ecossistemas e climas, já para não falar de propriedades privadas texanas a perder de vista.

Isto significa que antes de construir o muro, e não uma vedação como já existe em algumas partes e que Trump fez questão de sublinhar que não é o quer, será necessário construir estradas e infraestruturas, não raras vezes no meio do nada.

Mais problemas

Pouco depois de ter ameaçado, ainda durante a campanha, em agosto, com a construção do muro fronteiriço, Donald Trump foi questionado por um jornalista da Univision, uma estação americana dirigida à comunidade hispânica, sobre como iria construir um muro com cerca de 3000 quilómetros.

“Muito facilmente. Sou um construtor. É fácil. Construo edifícios que são…, sabe o que é mais complicado? O que é complicado é construir um prédio de 95 andares”, afirmou, então, Trump.

O problema é que Donald Trump não é construtor, como fez notar o engenheiro Ali F. Rhuzkan, num artigo para a conceituada The National Memo.

Trump é aquele que paga a alguém para construir, sublinhou Rhuzkam, ainda que a sua referência a um edifício de 95 andares não seja algo a desconsiderar em termos de dificuldade, até porque não há muitos.

O The Washington Post fez-se à estrada para ver de perto o muro idealizado por Trump. Falou com locais e especialistas de diferentes áreas e concluiu que a tarefa não será tão simples quanto foi oficializá-la.

O terreno é muito difícil em algumas áreas, seja por ser arenoso, pantanoso ou montanhoso, remoto ou inóspito, atravessar diferentes climas e vegetações, sem esquecer o Rio Grande, cujo curso não pode ser afetado. Um desafio, portanto, para os construtores. E tratando-se de um muro e não de uma vedação haverá, certamente, betão.

Outro problema identificado pelo jornal dá pelo nome de Texas. É neste estado que está a maior parte da fronteira com o México, cerca de 2000 quilómetros. A maior parte da propriedade no Texas é privada e não tem qualquer vedação e até há americanos que vivem no “lado mexicano”.

E estes proprietários vão ter uma palavra a dizer. Mesmo que sejam obrigados a ceder ou a vender terrenos ao Governo, este não se livrará de batalhas judiciais, como aconteceu há uns anos com George W. Bush, já para não falar dos custos acrescidos à obra com a compra de propriedade.

Os ambientalistas alertam, ainda, para a necessidade de preservação dos ecossistemas que ficarão comprometidos com a construção de um muro que impedirá o acasalamento de espécies que circulam pelos dois lados da fronteira, nomeadamente os ameaçados jaguar e urso negro.

Fatura

Até agora a administração Trump não revelou como tenciona construir o muro. Apenas que será construído, que custará até 12 mil milhões de dólares e que serão os mexicanos a pagá-lo, quer queiram quer não (via impostos ou receitas, como por exemplo uma taxa adicional de 20% sobre os produtos mexicanos), mas tudo ainda num campo de hipóteses.

A fatura de Trump não corresponde, todavia, à elaborada pela imprensa especializada norte-americana, que estima um encargo de pelo menos 25 mil milhões de dólares. Sem contar com a manutenção anual e os encargos com pessoal a contratar.

Para impedir a entrada de imigrantes ilegais, o muro terá de ter, segundo os especialistas, um metro e meio de profundidade para evitar a construção de túneis (o método preferido atualmente para entrada nos EUA através daquela fronteira) e no mínimo seis metros de altura, assentes numa estrutura de betão com aço, nomeadamente painéis pré-fabricados, ainda que as fundações tenham de ser sempre feitas no local. Isto implica trabalhadores, infraestruturas, acessos e serviços no terreno.

Só nos materiais, a CNN, por exemplo, estima um gasto de dez mil milhões de dólares.

Por saber continua como Donald Trump pensa construir aquela que poderá ser uma das maiores obras de engenharia da história dos Estados Unidos. 

Catarina Machado