A poetisa norte-americana Louise Glück foi anunciada esta quinta-feira como a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2020.

A Academia sueca justificou a atribuição do Nobel à poetisa pela sua "inconfundível voz poética que com beleza austera torna a existência individual universal".

 

No anúncio do prémio, o secretário permanente da Academia Sueca, Mats Malm, disse ter falado momentos antes com a laureada, que recebeu a notícia “com surpresa, mas bem-vinda”, tanto quanto foi possível perceber tendo em conta a hora.

Glück, por publicar em Portugal, fez a sua estreia literária com “Firstborn”, em 1968, e foi “rapidamente aclamada como uma das mais proeminentes poetas na literatura contemporânea americana”.

Está representada na coletânea "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", da Assírio & Alvim (2001), com o poema "O Poder de Circe".

Nascida em 1943 em Nova Iorque, Louise Glück fez a estreia literária pouco depois dos vinte anos. 

É considerada pela Academia Sueca "uma das mais relevantes poetas da literatura norte-americana contemporânea", que recorre a mitos e figuras clássicas para escrever sobre a infância, a família e a morte.

A academia aponta ainda uma proximidade literária a Emily Dickinson e elogia-lhe a capacidade de chegar ao individual a partir de temas universais.

Na poesia de Louise Glück é-lhe ainda reconhecida sensibilidade, expressividade, uma linguagem poética precisa e uma vontade em ser compreendida pelo leitor.

Atualmente a viver em Cambridge, Massachussetts (EUA), é professora de língua inglesa na Universidade de Yale e soma vários prémios literários, entre os quais o Pulitzer, conquistado em 1993 com a obra "The Wild Iris".

Tem ainda publicados, entre outros, "The Garden" (1976), "Vita nova" (1999), "Averno" (2006) e "Faithful and Virtuous Night", a mais recente obra poética, de 2014 e que lhe valeu o prémio National Book Award, nos Estados Unidos.

No poema "O Poder de Circe", traduzido por José Alberto Oliveira para a "Rosa do Mundo", coletânea organizada pelo editor Manuel Hermínio Monteiro, Gluck escreve: "Nunca transformei ninguém em porco. Algumas pessoas são porcos; faço-os parecerem-se a porcos. Estou farta do vosso mundo que permite que o exterior disfarce o interior".

Glück alude à deusa da ilha de Eana e aos seus poderes, que conhece venenos e encantamentos, dons de transformação, a feiticeira que, na "Odisseia", aprisiona os soldados de Ulisses, no corpo de porcos: "Pensas que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo, toda a feiticeira tem um coração pragmático; ninguém vê o essencial que não possa enfrentar os limites".

O Nobel da Literatura, envolto em diversas polémicas nos últimos anos, tem um valor superior a 900 mil euros.

Numa lista de contemplados largamente masculina, Gluck torna-se na sétima mulher a ser distinguida este século e a 16.ª, desde o começo, entre as 117 pessoas a quem foi atribuido o Nobel da Literatura.

Após a controversa escolha de Bob Dylan, em 2016, a Academia Sueca foi apanhada pela agitação de um escândalo sexual e de crimes financeiros que a dividiu tanto que teve de adiar a atribuição do prémio de 2018, pela primeira vez em mais de 70 anos.

A polémica rebentou no final de 2017 com denúncias de 18 mulheres a um diário sueco, de que teriam sido vitimas de abuso sexual por parte do artista Jean-Claude Arnault, que foi condenado no final de 2018 a dois anos e meio de prisão por violação.

Ao rebentar o escândalo, a Academia Sueca cortou relações com o artista e pediu uma auditoria, que concluiu que Arnault não influenciou decisões sobre prémios e bolsas.

Contudo, descobriu-se que Katarina Frostenson, mulher do artista e membro do comité que decidia a atribuição do Nobel da Literatura, era coproprietária do clube literário do marido, que recebia regularmente apoio financeiro da Academia Sueca, o que violava as regras de imparcialidade.

O relatório confirmou também que a confidencialidade sobre o vencedor do Nobel foi violada várias vezes.

Após várias demissões e reestruturação dos lugares de topo, em 2019, a Academia premiou o romancista austríaco Peter Handke (nesse ano o Prémio referente a 2018 foi atribuído à escritora polaca Olga Tokarczuk), o que gerou forte controvérsia, devido às conhecidas posições pró-sérvias do escritor, durante a guerra na ex-Jugoslávia, tendo, inclusivamente, levado a principal associação de vítimas do genocídio de 1995 em Srebrenica a acusá-lo de defender responsáveis por crimes de guerra e a pedir a retirada do prémio.

/ BC - atualizada às 13:30