A oposição brasileira em massa, desde a esquerda até à direita mais moderada, criticou esta sexta-feira as supostas intenções do Presidente, Jair Bolsonaro, de "politizar" as Forças Armadas, que têm um papel-chave no seu Governo.

As críticas têm como origem a decisão do Alto Comando do Exército de não punir o general e ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, por ter participado num ato político com Bolsonaro, movimento que está proibido a integrantes das Forças Armadas.

Foi aberto um precedente muito perigoso e incompatível com o propósito das Forças Armadas", diz uma nota divulgada pelo partido Novo, uma formação liberal de direita que mantém uma linha crítica contra Bolsonaro.

No mesmo sentido, expressou-se também o partido Cidadania, formação de centro-direita que considerou a falta de punição de Pazuello como "uma mancha na imagem das Forças Armadas" e uma "prova de que o Alto Comando é servo do capitão", cargo com que Bolsonaro foi para a reserva do Exército há mais de três décadas.

Segundo Gleisi Hoffmann, presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), formação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa decisão de não sancionar Pazuello por participar num ato político mesmo sendo um general ativo "abre um flanco para a insubordinação" de outros militares.

A polémica teve início com uma decisão do Alto Comando do Exército, adotada na quinta-feira, que arquivou uma investigação iniciada contra Pazuello por participação num ato político realizado por Bolsonaro, em 23 de maio, no Rio de Janeiro, juntamente com milhares de apoiantes.

O gesto configura uma transgressão disciplinar, por alegadamente ter infringido o Regulamento Disciplinar do Exército, que considera transgressão "manifestar-se, publicamente, o militar da ativa [no ativo], sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária".

O estatuto dos militares diz ainda que "são proibidas quaisquer manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político".

Em relação a Pazuello, apesar de ser general ativo no Exército, o Alto Comando decidiu que "não se caracterizou nenhuma transgressão disciplinar", pelo que o caso "foi arquivado".

A oposição denunciou que Bolsonaro, como autoridade suprema das Forças Armadas, decidiu impedir a sanção de Pazuello, homem da sua mais absoluta confiança e que acaba de ser nomeado para um cargo na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência.

Pazuello foi ministro da Saúde entre maio de 2020 e março de 2021, em plena pandemia do coronavírus, que já matou quase 470 mil brasileiros.

A sua gestão nesse cargo é investigada pela Justiça e também por uma comissão de inquérito do Senado, que tenta apurar se o Governo teve alguma responsabilidade no agravamento da crise da covid-19, que continua fora de controlo no Brasil e ameaça desencadear uma nova vaga pandémica nas próximas semanas.

/ JGR