Cerca de 12 mil estrangeiros e afegãos que colaboraram com as forças internacionais conseguiram fugir do Afeganistão desde que os talibãs entraram em Cabul, no passado domingo, disse uma fonte da NATO, citada pela Reuters.

Até ao momento, pelo menos 12 pessoas morreram nas imediações do aeroporto, desde domingo. Só quem tem passaporte ou visto para viajar pode chegar ao local.

“O processo de evacuação é lento e arriscado. Não queremos qualquer confronto com os talibãs ou civis fora do aeroporto”, disse a mesma fonte, que pediu anonimato.

Vários países estão envolvidos neste processo. Ainda esta sexta-feira, militares norte-americanos estacionados no aeroporto de Cabul realizaram missões na zona envolvente para recolher civis, trazidos de volta à base para serem retirados do país, confirmou o Pentágono.

Um helicóptero norte-americano CH-47 Chinook recolheu afegãos, a maioria mulheres e crianças, e transportou-os para o Aeroporto Internacional Hamid Karzai, segundo adiantaram fontes de comando militar à agência AP.

"Em pouco tempo e cobrindo uma curta distância, alguns soldados conseguiram sair, recolher (os civis) e trazê-los de volta" ao aeroporto, disse o porta-voz da Secretaria da Defesa norte-americana, John Kirby.

A 3.ª Brigada de Combate do Exército dos EUA, da 82.ª Divisão Aerotransportada, retirou os afegãos a partir de Camp Sullivan, próximo do aeroporto de Cabul.

Equipas dos serviços de inteligência norte-americanos dentro de Cabul estão a ajudar a chegar ao aeroporto cidadãos nacionais e afegãos, bem como as famílias destes, ou a garantir que são resgatadas através de outros meios.

Para aqueles que vivem em cidades ou regiões fora de Cabul, estas equipas e forças de operações especiais estão a reunir os cidadãos em locais predeterminados.

Sem revelar os locais, por motivos de segurança, as fontes falaram ainda sob condição de anonimato por não estarem autorizadas a discutirem operações em andamento.

Espanha recebe 148 refugiados afegãos e França 99

Mais 148 refugiados afegãos chegaram nas últimas horas a Madrid, em dois voos, enquanto 99 aterraram em Paris.

O último dos dois aviões que chegaram esta sexta-feira a Espanha, com afegãos retirados do seu país, aterrou pouco depois das 20:30 na base aérea de Torrejón de Ardoz (Madrid), com 110 passageiros a bordo, na sua maioria funcionários de instituições espanholas, com as suas famílias.

No grupo veio a capitã da equipa afegã de basquetebol paralímpica, Nilofar Bayat, que pediu ajuda para deixar o país.

Este grupo, que inclui três famílias de pessoal da embaixada espanhola no Afeganistão, deixou Cabul num avião das Forças Armadas espanholas, que voou para o Dubai e de lá seguiu num voo comercial para Espanha.

Horas antes desta aterragem, um avião proveniente de Paris aterrou na base de Torrejón com mais 38 passageiros afegãos que colaboraram com diferentes instituições europeias e que serão transferidos para vários países.

Eleva-se agora a quatro o número de aviões que já chegaram a Espanha com civis vindos do Afeganistão no âmbito do plano de evacuação: dois fretados pelo governo espanhol e outros dois por países europeus.

Entretanto, um avião militar francês transportando mais de 100 pessoas evacuadas de Cabul aterrou hoje em Paris, naquela que é a quarta operação do género desde que foi lançado o plano de evacuação no início da semana.

Num comunicado, o governo francês disse que 99 afegãos e quatro cidadãos franceses estavam entre os passageiros do voo, que chegou ao fim da tarde ao aeroporto Charles de Gaulle, na capital francesa, vindo de Abu Dhabi.

A estas pessoas a França oferece apoio médico, psicológico e material, e para os afegãos foram postos em prática também procedimentos acelerados para que possam obter vistos, uma vez efetuados os controlos para garantir que não representam um risco para a segurança interna da França.

Desde a primeira rotação entre Cabul e Paris, na segunda-feira, com uma escala na base aérea francesa nos Emirados Árabes Unidos, a França já retirou 600 pessoas.

Quanto ao contingente de refugiados que chegou hoje a Espanha, instalou-se no campo provisório da base militar em Torrejón de Ardoz (Madrid), de onde cerca de 50 serão distribuídos, nos próximos dias, para centros de acolhimento em Espanha e o resto para diferentes países da União Europeia.

Os afegãos que chegaram a Madrid no último avião foram recebidos pelo ministro da Presidência, Félix Bolaños, que, numa breve aparição, admitiu que a situação no aeroporto de Cabul "continua a ser muito complicada, dramática", porque milhares de pessoas querem embarcar a fim de terem uma vida "segura e melhor".

"Espanha e Europa estão a trabalhar dia e noite para poderem retirar o maior número de pessoas possível e no menor tempo possível", afirmou Bolaños, antes de reiterar que para todos estes cidadãos "Espanha e Europa é a sua esperança de uma vida melhor, especialmente para as mulheres e raparigas".

Entretanto, muitos afegãos que estão na lista de repatriamento do governo espanhol, incluindo um bom número de tradutores, ainda não conseguiram chegar ao aeroporto, controlado pelos EUA, devido ao risco dos postos de controlo destacados pelas milícias talibãs nas proximidades, onde reina o caos, com milhares de pessoas a tentar aceder.

A lista das autoridades espanholas inclui mulheres ativistas pela igualdade, defensoras dos direitos humanos, professores, jornalistas e trabalhadoras como cabeleireiras, que poderiam ser objeto de repressão por parte dos Talibãs.

Para analisar o desenvolvimento do processo, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e o Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, vão visitar no sábado, o campo de Torrejón, juntamente com o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez.

Catarina Pereira / com Lusa