"Como se sentirão as mulheres no Afeganistão com o regresso dos talibãs?”. A questão foi levantada no domingo por Paulo Portas e merece uma reflexão mais aprofundada.

Ainda os talibãs não tinham invadido Cabul e já os centros de estética tinham sido fechados. Não havia cartazes ou outdoors de mulheres nas ruas, tinham sido todos 'tapados' com tinta. É essa a imagem mais partilhada e que está a marcar esta guerra criada pelos homens. 

Fonte: Tolo News (canal de notícias 24 horas do Afeganistão)

Onde antes se via mulheres livres, felizes e a lutar pelos seus objetivos, agora vemos rostos vazios. Mulheres desesperadas com medo de serem maltratadas. No espaço de poucos dias, foram obrigadas a deixar o trabalho, a faculdade, os sonhos, os planos, o futuro.

Uma estudante universitária, cujo nome não é revelado, contou ao jornal The Guardian que se lembra de, no domingo de manhã, ver um grupo de mulheres, completamente desesperadas e aterrorizadas, a fugir do dormitório feminino. Ao perguntar a uma delas o que se estava a passar, a resposta foi: a polícia está a evacuar o espaço devido à chegada dos talibãs, que prometeram bater em todas as mulheres que não estivessem a usar a burca. 

Mas mesmo fugindo antecipadamente, o caminho até casa foi tudo menos fácil. As mulheres afegãs não podiam utilizar transportes públicos e nenhum motorista lhes queria dar boleia, por não quererem sofrer as consequências de as estarem a transportar. 

No meio deste cenário dramático, ouviam-se frases como: "vão-se embora e metam a vossa chadari (burca)", "estes são os vossos últimos dias a andar pelas ruas", "eu vou casar com quatro de vocês no mesmo dia"

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Muitas delas eram trabalhadoras estudantes, outras já estavam na reta final da licenciatura, frequentavam as melhores faculdades do Afeganistão. Mas, num ato relâmpago, tudo isto mudou.  

Eu trabalhei muitos dias e noites para me tornar na pessoa que sou hoje e esta manhã, quando cheguei a casa, a primeira coisa que eu e as minhas irmãs fizemos foi esconder os nossos documentos de identificação, diplomas e certificados. Eu estava devastada. Porque é que nós temos de esconder as coisas das quais deveríamos ter orgulho? Agora, no Afeganistão, já não podemos ser reconhecidas pelas pessoas que somos", contou. 

 

Enquanto mulher, sinto que estou a ser vítima de uma guerra política que os homens começaram. Sinto que já não posso dar uma gargalhada, que já não posso ouvir as minhas músicas favoritas, não posso ir ter com as minhas amigas ao nosso café favorito, já não posso usar o vestido amarelo que adoro e usar batom cor de rosa. Que já não posso mais ir trabalhar ou terminar a minha licenciatura que demorei anos a conquistar", acrescentou. 

A estas mulheres, jovens e adolescentes foi-lhes retirada a vida, o prazer da vida. Mesmo os mais pequenos, como arranjar as unhas ou o cabelo. Os centros de estética e cabeleireiros foram todos fechados e as imagens de mulheres maquilhadas e vestidas de forma "provocante", aos olhos dos talibãs, que faziam parte das montras destes espaços, foram todas 'tapadas' com tinta. 

Voltando à questão inicial - "como se sentirão as mulheres no Afeganistão com o regresso dos talibãs? -, podia fazer-se uma lista de sentimentos negativos. Agora, não existem rostos de mulheres felizes. Sejam elas reais ou em papel. Existem rostos de medo, tristeza e angústia, depois de anos a lutar por educação, direitos e liberdades. 

Parece que tive de queimar tudo o que conquistei em 24 anos de vida".

"Hang in there sisters!", o tweet leviano de Yánis Varoufákis

O antigo ministro das finanças da Grécia, Yánis Varoufákis, numa tentativa de mostrar a sua solidariedade com as mulheres afegãs, conseguiu o efeito contrário.

Numa publicação no Twitter, Varoufákis escreveu "A nossa solidariedade provavelmente significa pouco para elas, mas é o que podemos oferecer - por enquanto. Aguentem-se aí, irmãs!"

A forma leviana como o ex-ministro grego encarou este cenário caótico tem sido alvo de duras críticas nas redes sociais: "tristeza", "desprezível", "obsceno", "estúpido" e "patético" são algumas das palavras que se podem ler nos comentários.

Poucas semanas depois dos Estados Unidos terem retirado o que restava das suas tropas no Afeganistão, assistiu-se a um ritmo alucinante a tomada do território pelos guerrilheiros talibãs, que não passam de uma organização política e religiosa extremista. No caminho, mataram, trataram mal as mulheres e "vingaram". Alegam que os norte-americanos já passaram demasiado tempo na terra deles e que "está na hora de irem embora".

Recorde-se que esta decisão de retirar as tropas norte-americanas do Afeganistão foi um desejo durante a presidência Obama, foi uma questão negociada durante a era de Trump e executada agora com Biden como presidente dos Estados Unidos. 

Os talibãs tomaram o controlo de Cabul no domingo, depois de terem entrado na capital sem encontrar resistência, com quase todas as províncias debaixo do seu domínio.

Cláudia Évora