As memórias que ficaram do Afeganistão governado pelos talibãs entre 1996 e 2001 espelhavam uma negação do progresso e da utilização da tecnologia. Na altura, a Internet (ainda no início) foi banida e vários equipamentos de televisão foram destruídos ou confiscados. Em pleno 2021, numa era profundamente digital, o grupo percebeu que tinha de mudar a sua atuação, e foi o que fez. Desde maio, altura em que a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos deixou o país, estes rebeldes começaram a preparar uma ofensiva no país.

Mas se a grande manobra foi militar, houve uma estratégia paralela assente no aproveitamento das redes sociais, essenciais para chegar a diferentes públicos, nomeadamente aos jovens. Um pouco ao estilo do que faz o Estado Islâmico, os talibãs lançaram uma campanha abrangente, que utiliza sobretudo o Twitter.

Ao longo do ano, e até ao decisivo dia 15 de agosto (que marcou a ocupação de Cabul), os talibãs utilizaram diferentes redes sociais para denegrir e rebaixar o trabalho feito pelo governo afegão, apoiado pelos Estados Unidos ao longo dos últimos 20 anos.

Em sentido contrário, vários tweets surgiram a vangloriar as várias vitórias do grupo, à medida que se avançava na ocupação do país. A acompanhar as mensagens, um conjunto de hashtags: #kabulregimecrimes, #westandwithTaliban e outras mais, que se foram tornando virais no país.

Em resposta, o vice-presidente do Afeganistão ia pedindo à população que não acreditasse e não partilhasse os conteúdos, mas era tarde demais.

A ação digital começou muito antes, ainda em 2005. Nessa altura, o grupo fundou o seu website oficial, o Al-Emarah, que defendia os Emirados Islâmicos dos Talibãs. Lançado há 16 anos, tem hoje tradução em cinco idiomas: inglês, árabe, pashto, dari e urdu. Todos os conteúdos de áudio, vídeo e escrita são revistos por Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Emirado Islâmico do Afeganistão.

É precisamente a conta deste membro que é uma das mais seguidas no Twitter, com um total de seguidores que supera os 389 mil. Com ele está também Suhail Shaheen, que tem mais de 476 mil seguidores naquela rede social, onde partilha vários conteúdos relacionados com o grupo, como o anúncio do governo recentemente criado.

A primeira conta de Zabihullah Mujahid até foi suspensa, mas desde 2017 que vem recuperando forças. Ali, como qualquer líder mundial, são partilhadas informações relativas às ações do grupo, quase sempre escritas em afegão, ao contrário do que faz Suhail Shaheen, que escreve maioritariamente em inglês.

Mas as redes sociais assumiram uma importância tal para o grupo que existe mesmo um diretor de redes sociais do Emirado Islâmico do Afeganistão, que é Qari Saeed Khosty, com mais de 180 mil seguidores no Twitter.

Em declarações à BBC, este homem confirmou que os talibãs utilizam o Twitter para tentar colocar as suas ideias como tendências, nomeadamente através das hashtags. Além disso, são também utilizadas mensagens através do Whatsapp e do Facebook, onde o objetivo é "amplificar a mensagem".

Os nossos inimigos têm televisão, rádio e contas verificadas nas redes sociais, enquanto nós não temos nenhuma. Ainda assim lutamos com eles no Twitter e Facebook para os derrotar", explica.

Dos mais de 38 milhões de habitantes do Afeganistão, pouco mais de oito milhões utilizam a Internet, sobretudo por falta de cobertura e de dados de acessibilidade. Para manter as redes sociais ativas, os talibãs pagam perto de 9,70 euros por mês para cada utilizador. Além disso, foi feito um grande investimento num estúdio "altamente equipado" para gerar conteúdos de vídeo e de marketing digital.

O resultado acaba em vídeos de propaganda com alta qualidade em que os talibãs são glorificados, como é o caso do vídeo abaixo.

Enquanto as publicações no Twitter e Youtube continuam a ser feitas regularmente, o Facebook classificou o grupo como uma "organização perigosa", removendo frequentemente conteúdos e páginas associadas aos talibãs.

Nesse sentido, Qari Saeed Khosty não esconde que o grupo tenta encontrar uma forma de conseguir manter a presença naquela rede social, ainda que se vá virando cada vez mais para o Twitter.

Sendo que pouco mais de 20% da população afegã tem Internet, coloca-se a questão: para quem se destinam as mensagens talibãs? Em anonimato, um dos membros dos talibãs disse à BBC que grande parte das contas foram criadas depois de fevereiro de 2020, altura em que a rede social foi utilizada, com êxito, para promover um artigo de opinião de Sirajuddin Haqqani, atual vice-líder do governo e um dos homens mais procurados pelo FBI, que escreveu para o New York Times.

A maioria dos afegãos não percebe inglês, mas os líderes em Cabul comunicam ativamente em inglês no Twitter. Porque a audiência deles não é afegã, mas sim a comunidade internacional", acrescenta a fonte.

Independentemente da intenção com que usam as redes sociais, a verdade é que os talibãs mudaram o paradigma e começam a utilizar a tecnologia existente para aproveitamento da sua mensagem.

António Guimarães