A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) denunciou esta terça-feira que o Irão voltou a produzir urânio enriquecido em valores muito acima dos limites e criticou as autoridades iranianas por impedirem a monitorização do seu programa nuclear.

Desde fevereiro de 2021, as atividades de verificação e monitorização têm sido seriamente dificultadas pela decisão do Irão" de restringir as inspeções, pode ler-se no relatório da agência das Nações Unidas.

Este documento vai ser discutido numa reunião do conselho de governadores da AIEA na próxima semana, numa altura em que estão paralisadas as conversações para ressuscitar o acordo internacional de 2015 sobre o programa nuclear do Irão, assinado com os Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

A República Islâmica tinha chegado a um acordo temporário que permitia à AIEA continuar a exercer algum grau de supervisão, que incluía ainda o compromisso de fornecer dados de câmaras e outras ferramentas de vigilância ao longo do tempo.

Porém, este compromisso expirou a 24 de junho e o Irão não deu seguimento, apesar dos vários "pedidos" da agência.

O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, disse mesmo que estava preparado para viajar ao Irão "para se encontrar com as autoridades iranianas e discutir estas questões", aponta o relatório, mas essa viagem não aconteceu.

Nestas condições, a capacidade técnica da AIEA para monitorizar o programa nuclear do Irão ao longo do tempo está "gravemente comprometida" e a sua "confiança está a diminuir com o tempo", acrescentou a agência da ONU, apelando ao Irão para "retificar imediatamente a situação".

Ao mesmo tempo, o Irão aumentou significativamente a produção de urânio enriquecido, violando os seus compromissos.

Segundo o acordo de 2015, o Irão concordou não só em permitir inspeções internacionais em troca do levantamento de sanções económicas ao país, mas também em só enriquecer o urânio até 3,67% de U-235, o isótopo mais adequado à fissão nuclear.

Segundo estimativas do final de agosto, o país aumentou esse valor até 60%.

O Irão tem vindo a eliminar gradualmente as restrições nucleares desde 2018, quando os Estados Unidos, pela mão do então Presidente Donald Trump, abandonaram o acordo e restabeleceram sanções.

Joe Biden, que chegou à Casa Branca em janeiro, afirmou querer reintegrar os EUA no pacto, que se destina a impedir a República Islâmica de adquirir uma bomba atómica.

As conversações iniciadas em abril, em Viena - sob a égide da União Europeia -, para tentar permitir este regresso, em troca de uma redução das sanções norte-americanas, foram adiadas em 20 de junho, dois dias após a eleição do novo Presidente iraniano, o ultraconservador Ebrahim Raissi.

Ainda não foi anunciada qualquer data para o reinício das conversações, apesar dos repetidos apelos de países do Ocidente.

/ NM