Os talibãs cercaram a capital do Afeganistão a 15 de agosto, preparando-se para a saída das tropas da coligação internacional, depois de os Estados Unidos terem anunciado a retirada total a 31 de agosto, 20 anos depois do início da missão no país.

A "conquista" de Cabul foi o último passo para o regresso ao poder do grupo extremista, mas no Afeganistão há um bastião que continua a resistir. Em Panjshir, a 116 quilómetros da capital afegã, há um grupo armado que luta contra força talibã.

O rosto dessa resistência é Ahmad Massoud, um homem de 32 anos graduado em Sandhurst, Reino Unido. Este homem é filho de Ahmad Shah Massoud, uma lenda do exército afegão, fundamental na desocupação soviética do Afeganistão, em 1989, e uma das figuras da resistência contra os talibãs durante o período entre 1996-2001, em que aquele grupo governou o país. Ainda antes do fim da vigência talibã, o pai de Ahmad Massoud acabaria por ser assassinado a mando de Osama Bin Laden, apenas dois dias antes dos atentados do 11 de setembro.

Numa entrevista concedida à CNN, Ahmad Massoud assegura que o grupo que lidera está a lutar contra a "intolerância e a opressão trazidas por uma força política perante uma maioria da população que não a apoia". Para o resistente, o Afeganistão precisa de um governo que represente os vários grupos étnicos do país.

Infelizmente, os talibãs não mudaram, e continuam atrás do domínio em todo o país. Nós resistimos ao domínio, à intolerância e à opressão. Os talibãs só vão ser aceites se formarem um governo inclusivo com todos os grupos étnicos do país", afirma, lembrando que nenhuma das etnias é maioritária no país.

Para combater os talibãs, este homem organizou um grupo no vale de Panjshir, uma zona montanhosa e pouco acessível, que por agora garante proteção dos talibãs. O último choque entre as duas forças deu-se na segunda-feira, com o grupo de Ahmad Massoud a conseguir aniquilar sete talibãs.

Mas quantos homens estão com Ahmad Massoud? Quem são as pessoas que lutam ao seu lado por um melhor futuro para o Afeganistão?

As nossas forças são feitas da resistência local de Panjshir, forças locais de outras províncias e alguns membros do que restou do exército afegão. Temos suficiente equipamento de momento, mas vamos precisar de ajuda para suster a nossa resistência a longo prazo", explica.

Para este homem, o legado deixado pelo pai é um dos motivos do combate, e a determinação marca o caráter da personalidade, que jura defender a sua causa "até ao último suspiro".

Sobre a real força dos talibãs, Ahmad Massoud afirma que não têm tanta capacidade como se julga, referindo que foi a fraqueza do governo e do exército afegãos que permitiram a entrada triunfal em Cabul e o consequente domínio do país, deixando críticas ao antigo presidente Ashraf Ghani: "Purgou o exército dos generais e oficiais que sabiam como combater os talibãs e que tinham motivações para lutar contra o inimigo".

Apesar da resistência, o grupo de Panjshir é favorável a negociações, ainda que o seu líder lembre que também Ahmad Shah Massoud tentou essa via, que se revelou ineficaz.

O nosso diálogo até agora não resultou em nada tangível. Não estou a negociar para fazer parte do governo. Negoceio para ver mudanças políticas que estabeleçam justiça social, igualdade, direitos e liberdade. Se os talibãs não fizerem concessões e continuarem a acreditar que podem dominar o país, então terei de resistir", vinca, lembrando os cinco anos de resistência durante a anterior vigência talibã.

Depois da saída dos Estados Unidos, a resistência de Panjshir é uma das poucas esperanças de que o Afeganistão pode caminhar para um estado democrático. Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas continua a apelar aos talibãs para que haja uma maior pluralidade no governo a formar, dando especial atenção aos direitos das mulheres, que durante o outro regime foram totalmente ignoradas em todos os seus direitos.

António Guimarães