Chloe Lopes Gomes, a primeira bailarina negra na Staatsballet Berlim, que denunciou atitudes racistas, foi readmitida após a companhia assumir comportamentos discriminatórios e defende que nem a dança é mais importante do que a dignidade.

Penso ter criado um precedente e que a partir de agora os dançarinos sejam ouvidos, pelo menos assim o espero”, disse à agência Lusa, a propósito do acordo com a Staatsballett, que não lhe tinha renovado o contrato, o que a bailarina afirmou ter sido o culminar de uma série de atitudes discriminatórias por ser negra.

Filha de pai cabo-verdiano e mãe franco-argelina, Chloe Lopes Gomes, 29 anos, concretizou um sonho ao fazer parte do corpo de 'ballet' do Staatsballet Berlim, em 2018, tornando-se na primeira bailarina negra desta companhia.

A cor da sua pele foi insistentemente recordada por uma professora de ballet da companhia que, inclusive, a obrigou a usar pó branco para clarear a pele e lhe recusou um véu branco, porque esta não era a sua cor.

Os colegas assistiam a estes episódios e a bailarina denunciou-os à companhia, mas foi após uma entrevista ao jornal The Guardian que as denúncias começaram a ser levadas a sério, principalmente porque Chloe foi dispensada, alegadamente devido às restrições impostas pela pandemia de covid-19.

Oito meses depois, o Staatsballett e a bailarina chegaram a um acordo, o que travou as intenções de Chloe avançar para tribunal.

É sempre bom quando se pode chegar a um acordo fora do tribunal, mesmo que seja triste que tenha chegado a isto”, disse, em declarações à agência Lusa.

A companhia de ballet renovou o contrato da dançarina, até ao final da época de 2021/22 e atribuiu-lhe uma compensação financeira.

Em comunicado, a diretora artística da Staatsballett, Christiane Theobald, mostrou-se satisfeita com este acordo.

“Lamento as experiências de comportamento discriminatório de Chloé Lopes Gomes, que levamos muito a sério e que estamos atualmente a avaliar em profundidade”, referiu.

E acrescentou: “Na Staatsballett Berlin defendemos uma política de tolerância zero em relação ao racismo e a qualquer forma de discriminação”.

A este propósito, anunciou que foi iniciada “uma transformação estrutural com o objetivo de colocar a independência, a colegialidade e a liberdade artística no centro de todo o processo de trabalho da empresa”.

Para Chloe Lopes Gomes, esta foi “uma pequena vitória, mas um grande passo para o ballet, especialmente para a Alemanha”.

A dançarina considera positivo que “a companhia de dança reconheça os seus erros” e admite que as suas denúncias possam ter criado um precedente.

Sobre os oito meses de luta que atravessou, sem trabalho, mas com o apoio de pessoas e organizações de todo o mundo, destaca uma lição: “A dança não deve ter precedência sobre a nossa dignidade”.

E o mais importante, adiantou, é falar se para isso houver razão, mesmo com o medo de perder o trabalho.

Graças às denúncias de Chloe, a Staatsballett Berlin criou, em dezembro de 2020, um gabinete do provedor de justiça para todos os trabalhadores, junto do qual estes podem relatar anonimamente experiências que tenham tido ou testemunhado de comportamentos discriminatórios.

Segundo Chloe Lopes Gomes, quando começou a sofrer as primeiras atitudes discriminatórias ainda tentou resolver o assunto internamente, mas a diretora, Christiane Theobald, “não tomou as medidas necessárias” e “continua a desempenhar impunemente as suas funções”.

Não tive outra escolha senão revelar a minha história para assistir a uma mudança profunda”, referiu.

Na sua luta, Chloe recebeu apoios “de todo o mundo” que incluíram associações como o movimento ativista internacional Black Lives Mater ou a plataforma Blacks in Ballet, que divulga a arte dos dançarinos negros.

/ MJC