Alexei Navalny, carismático ativista contra a corrupção das elites russas, é há uma década considerado o principal opositor a Vladimir Putin, o que lhe valeu processos judiciais, penas de prisão e duas presumíveis tentativas de envenenamento.

O advogado de 44 anos está hoje em coma, numa unidade de cuidados intensivos num hospital da Sibéria, depois de se ter sentido mal e perdido a consciência durante um voo de regresso a Moscovo, o que a sua equipa atribuiu a um envenenamento.

“Como qualquer pessoa envolvida na política de oposição na Rússia, eu sei que o governo de Putin não tem limites e não vai parar por nada. Eu sei isso, mas não tenho medo”, disse numa entrevista em 2016.

Nascido em 1976 nos arredores de Moscovo, Alexei Navalny fundou em 2011 a Fundação Anti-Corrupção para investigar a riqueza de Vladimir Putin e do seu círculo próximo, organização que nos últimos anos tem sido alvo de frequentes buscas, multas e sanções financeiras e, no mês passado, foi encerrada por falta de verbas, depois de um processo que o obrigou a uma indemnização avultada a um empresário próximo do Kremlin.

O advogado que se tornou ativista acabou por se tornar, em 2011 e 2012, o líder da oposição democrática na Rússia, considerado, no país e no estrangeiro, a mais séria ameaça ao poder do então ex-presidente, primeiro-ministro e candidato às presidenciais, Vladimir Putin.

Liderou manifestações com centenas de milhares de pessoas em Moscovo e São Petersburgo, numa altura em que muitos russos despertaram para as denúncias de alta corrupção das elites e de fraudes eleitorais, nos maiores protestos antigovernamentais no país desde o fim da União Soviética.

Mas muitos dos dirigentes oposicionistas dessa contestação foram detidos, exilados ou mortos, como o amigo de Navalny e ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov, morto a tiro em 2016 perto do Kremlin.

Hoje, apesar de grandemente ignorado pela imprensa russa, não representado no parlamento e impossibilitado de se candidatar a cargos políticos até 2028 por duas condenações por desvio de fundos que envolveram também o irmão, Oleg, e que assegurou terem motivações exclusivamente políticas, continua a ser a principal voz da oposição na Rússia.

Tem estado múltiplas vezes detido por dias ou semanas, acusado de violar as leis sobre manifestações.

No ano passado, durante uma dessas detenções, foi levado de urgência para um hospital por uma reação alérgica grave que a sua equipa atribuiu a um envenenamento. No dia seguinte teve alta e foi levado de volta à prisão.

Em 2017, Navalny foi atacado por um grupo de homens que lhe lançou antissético para a cara, provocando-lhe lesões num olho.

Proibido de aparecer na televisão nacional, tem um canal no YouTube com quase quatro milhões de assinantes onde divulga as suas investigações sobre corrupção que chegam a ser vistas por dezenas de milhões de pessoas, entre as quais muitos jovens russos.

Um documentário de 2017 em que acusava o então primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, de corrupção, foi visto por mais de 30 milhões de pessoas em dois meses.

Nas investigações, Navalny aponta a responsáveis considerados intocáveis, tendo nomeadamente apresentado queixas contra Putin e contra o Procurador-Geral, Iuri Tchaika, e divulgado a origem ilegítima do património de muitos dos mais próximos do Presidente.

“Faço política há muito tempo, sou frequentemente detido […]. Faz parte da vida […] Faço o trabalho de que gosto mais, as pessoas apoiam-me. O que é que pode fazer um homem mais feliz?”.

/ LF