As últimas semanas têm sido marcadas por várias catástrofes que estão a preocupar os especialistas. 

Depois da mortífera onda de calor que se abateu sobre a América do Norte, com as temperaturas a atingir os 49,6 ºC, a Europa Central foi esta semana atingida por um dilúvio que já fez mais de 100 mortos e um milhar de desaparecidos. 

A situação mais grave vive-se na Alemanha, com várias localidades completamente submersas. As imagens revelam um cenário de grande destruição e também o desespero de quem enfrenta uma situação sem precedentes nos útimos cem anos.

Incidentes de inundações repentinas semelhantes foram também relatados na Bélgica, Holanda, França e Suíça, ao longo desta semana. Também em Inglaterra, algumas zonas de Londres registaram a chuva equivalente a um mês em apenas um dia.

Isto acontece depois da cidade de Nova Iorque, no outro lado do Atlântico, ter sido afetada por graves inundações, na passada quinta-feira, à passagem do furacão Elsa. 

Esta sucessão de fenómenos naturais catastróficos reacenderam o debate sobre as consequências do aquecimento global provocado pelo Homem.

A TVI reuniu a opinião de alguns especialistas na matéria, que tentaram explicar a origem das mais recentes catástrofes.

Serão estes fenómenos sem precedentes?

Os cientistas há muito que previram que as emissões humanas provocariam mais inundações, ondas de calor, secas, tempestades e outras formas de clima extremo, mas os picos mais recentes superaram as expectativas pela negativa.

Pedro Garret, investigador da Faculdade de Ciências da Univ. Lisboa, explicou à TVI que não é claro se as chuvas extremas registadas na Alemanha são resultado direto do aquecimento do planeta, mas há indícios.

Cheias e secas sempre houve. Mas hoje falamos de uma dimensão maior. Verificámos que, nos últimos 20 anos (e isso é muito notório) que este tipo de eventos tem sido mais frequentes, mais localizados e mais intensos", explicou, observando que, com a atmosfera mais quente, exatamente 1,2ºC desde a era da revolução industrial, a água evapora mais e a atmosfera retém mais humidade.

Já no caso do Canadá, o investigador afirmou que as ondas de calor são potenciadas por um enfraquecimento da barreira de vento que separa as temperaturas frias do ártico das restantes.

O ártico está a aquecer a um ritmo muito superior do resto do planeta", fundamentou Pedro Garret.

Ora, nos últimos dez anos , estes sistemas "bloqueiam" e temos um efeito de temperaturas amplificado, com radiação a bater diretamente na superfície, que também aquece e erradia mais energia.

A conjugação destes fenómenos amplificam significativamente os recordes de temperaturas que temos de estado a registar", explicou, adiantando que os Estados Unidos "poderão passar no fim de semana pela terceira onda de calor consecutiva"

As catástrofes vão piorar?

Facto é que os sete anos mais quentes registados na história ocorreram desde 2014, em grande parte como resultado do aquecimento global. Os modelos de computador prevêem que tal provocará um clima mais extremo, o que significa que os recordes serão quebrados com mais frequência e em mais lugares.

Estou surpreendido com o quanto está acima do recorde anterior”, afirmou Dieter Gerten, professor do Instituto Potsdam para a Pesquisa de Impacto Climático, ao The Guardian. 

Com as alterações climáticas, esperamos que todos os extremos hidrometeorológicos se tornem mais extremos. O que vimos na Alemanha é amplamente consistente com essa tendência. ” disse Carlo Buontempo, diretor do Serviço de Alterações Climáticas Copernicus do Centro Europeu de Previsões do Tempo de Médio Prazo.

Também Pedro Garret afirmou que o aquecimento global faz com que estes fenómenos sejam mais intensos e a capacidade de previsão seja cada vez menor.

O que podemos fazer para mudar?

Pedro Garret explicou ainda que mesmo que consigamos parar a emissão de gases de efeito estufa agora, a temperatura iria continuar a aumentar e os efeitos não vão desaparecer completamente.

E não vai ser na nossa vida, nem na dos nossos filhos", apontou o investigador, admitindo que "estamos a sofrer aquilo que aconteceu nos últimos 100 anos"

O investigador português deixou um alerta:

Se nós cumprirmos o acordo de Paris, há 50% de probabilidades de não atingirmos o ponto de não retorno- Tem de haver políticas muito fortes, mas temos de estar todos no mesmo barco. 

Também o especialista Nikos Cristids afirmou à imprensa internacional que "isto é algo com que teremos de lidar nas próximas décadas. Por isso, mesmo no melhor cenário, ainda vamos ter de aprender e adaptarmos-nos a alterações que já foram causadas por emissões que já aconteceram".

Rafaela Laja