Vários órgãos de comunicação social estão a divulgar documentos do governo do Brasil que contêm os planos de Jair Bolsonaro para a Amazónia, região que está a ser fortemente atingida por incêndios.

Estes ficheiros surgiram após uma reunião do governo no Pará e chegaram às mãos da democraciaAberta, uma plataforma online de defesa dos direitos humanos. Alguns diapositivos de PowerPoint mostram que Jair Bolsonaro pretende utilizar o discurso de ódio para diminuir o poder das minorias a viver na Amazónia e implementar projetos que poderão ter um impacto ambiental devastador.

Uma das intenções de Jair Bolsonaro passa por evitar a implementação de projetos de proteção florestal, nomeadamente o "Triple A", uma espécie de corredor ecológico que se estenderia desde o Peru até ao litoral brasileiro. A zona abrange uma área de 200 milhões de hectares, onde vivem 30 milhões de pessoas, de oito países sul-americanos. A ideia seria criar 309 áreas protegidas.

Pouco depois de ter sido eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro referiu-se ao "Triple A" como "uma grande faixa que abrange os Andes, a Amazónia e o Atlântico, e que poderá fazer com que [o Brasil] perca a soberania nessa área". O documento chega a fazer referência ao projeto "Calha do Norte", um programa que prevê a presença de forças militares na região e que Bolsonaro quer agora ver alargado.

Há que implementar a Calha do Norte sobre a bacia do Amazonas e integrá-la no resto do território nacional, para fazer frente a pressões internacionais para a implementação do projeto denominado Triple A. Para isso, é necessário construir a central hidroelétrica do rio Trombetas, a ponte de Óbidos sobre o rio Amazonas e implementar a estrada BR 163 até à fronteira com o Suriname", pode ler-se nos documentos agora revelados.

Durante uma das reuniões, que ocorreu em fevereiro deste ano, estiveram presentes os ministros da Presidência, do Ambiente e dos Direitos Humanos. Uma das ideias apresentadas pelos governantes foi a habitação da região amazónica, que seria importante para evitar projetos de preservação na zona.

Como parte da estratégia está o discurso de ódio, nomeadamente contra ONG que trabalhem na zona, e essa é uma ideia presente nos diapositivos, que referem uma campanha global que "relativiza a soberania nacional na bacia amazónica". Essa campanha, refere o documento, é levada a cabo por ONG ambientalistas indígenas, bem como por pressões diplomáticas e económicas.

Recorde-se que, na sequência dos incêndios, Jair Bolsonaro insinuou que alguns dos fogos poderiam ter sido provocados por ONG.

Pode haver mão criminosa dos membros das ONG para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Parece que o fogo foi colocado em lugares estratégicos. Existem imagens de toda a Amazónia. Como pode ser? Nem vocês [meios de comunicação] teriam condições para filmarem todos os locais atingidos pelos fogos. Pelo que tudo indica, foi para lá gente para filmar e pôr fogo. Esse é o meu sentimento", disse em declarações aos meios de comunicação brasileiros.

Trechos dos documentos a que o Folha de São Paulo teve acesso revelam críticas ao Fundo Amazónia, programa de apoio a projetos de preservação da floresta amazónica, e que é apoiado sobretudo por países como a Alemanha e a Noruega, que, por sua vez, já anunciaram a suspensão de verbas para o fundo, uma vez que, segundo estes governos, o Brasil está a quebrar o acordo para a redução do desmatamento na Amazónia. Com efeito, a desflorestação daquela região cresceu 278% num ano. O documento diplomático refere que quase 40% do dinheiro do Fundo Amazónia foi alocado a ONG.

A Amazónia está a ser devastada por violentos incêndios há três semanas, mas só agora o problema começa a ser conhecido no Brasil e no resto do mundo. Após as críticas do presidente do Brasil às ONG, a Greenpeace e a WWF já repudiaram as declarações.

O Estado não tem capacidade de atuar em todos os lugares e parte da sociedade civil assume a responsabilidade de o fazer. Criminalizar isso é um desejo deliberado de descrédito porque o presidente não acredita na organização social, ele acha que é uma coisa manipulada pela esquerda, pelos comunistas. No fundo, é criminalizar a cidadania. Só governos autoritários, que sonham com ditaduras, podem pensar em criminalizar os seus cidadãos", afirmou Paulo Addario, da Greenpeace.