O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmou esta quarta-feira, em Manaus, no estado do Amazonas, que as reservas indígenas e políticas de proteção ambiental "prejudicaram o crescimento do Brasil", segundo a imprensa local.

Hoje, nós temos o estado Amazonas tomado, na maior parte, por reservas indígenas, áreas de proteção ambiental, estações ecológicas, parques nacionais, entre outras políticas ambientais que, em parte, prejudicaram o crescimento do nosso Brasil", disse o Presidente, citado pelo portal de notícias G1.

O chefe de Estado elogiou ainda a "Zona Franca de Manaus", um parque industrial brasileiro, criado em 1967, durante a ditadura militar.

Desde que assumiu o poder, em janeiro, Jair Bolsonaro declarou, várias vezes, que não irá demarcar mais terras indígenas durante o seu mandato presidencial.

No final de agosto, o Presidente disse que se demarcasse todas as áreas indígenas solicitadas, a "agricultura e pecuária ficariam inviabilizadas".

"Aproximadamente 200 áreas indígenas estão prontas a ser demarcadas (...) Ou seja, hoje em dia, 14% do território brasileiro já está demarcado como terra indígena, mas se eu demarcar todas essas áreas que estão a pedir, esse valor passa para 20%. Simplesmente a agricultura, pecuária, ficariam inviabilizadas no Brasil", argumentou Jair Bolsonaro na ocasião, na rede social Facebook.

Ao participar numa feira em Manaus, região que integra a Amazónia brasileira, Jair Bolsonaro afirmou esta quarta-feira, que grande parte dos indígenas é condenada a viver como "homens pré-históricos", situação que, a seu ver, deve ser alterada.

O chefe de Estado argumentou que os índios desejam produzir, plantar e garimpar [extração de minérios] as suas terras, para colherem os "benefícios e as maravilhas da ciência e da economia".

Quantos entre vocês, aqui, são descendentes de índios? Por que reservar o espaço dentro de uma terra onde você não possa fazer nada sobre ela? Eu quero (...). Nós queremos o índio fazendo dentro da sua terra exatamente o que o fazendeiro faz do lado, na sua terra. Possa, inclusive, garimpar", declarou o governante.

Contudo, nem todas as comunidades indígenas partilham da opinião de Bolsonaro em relação à prática mineira.

Numa carta tornada pública, as lideranças dos povos indíegnas Yanomami e Yekwana, fixados nos estados de Roraima e Amazonas, frisaram não querer "garimpo e mineração" nas suas terras.

Nós queremos que o Governo cumpra o seu dever de proteger a nossa terra. Queremos que o Governo tire os garimpeiros que estão na nossa terra e impeça a entrada de mais garimpeiros. Nós conhecemos os nossos direitos e sabemos que o garimpo na Terra Indígena Yanomami é ilegal. Vocês, brancos, fizeram essa lei, mas vocês mesmos não estão a cumprir. Nós sabemos cuidar da nossa terra-floresta", lê-se no documento.

As lideranças indígenas dizem ainda sentirem-se ameaçadas por garimpeiros, e temem que se aproxime um novo "massacre".

Os nossos avós e tios morreram por causa dos garimpeiros. Nós não queremos repetir essa história de massacre. (...) Os garimpeiros estão a ameaçar as nossas vidas, violando e prostituindo as nossas mulheres. Trazem todo tipo de bebidas, drogas e doenças. Eles têm muitas armas e são violentos também entre eles. Eles matam-se uns aos outros e enterram os corpos na beira dos rios", denunciaram os povos nativos.

Os líderes indígenas alertaram ainda para a contaminação de “rios, peixes, alimentos” com o mercúrio usado pelos garimpeiros, denunciando que no rio Uraricoera, o mais extenso de Roraima, “mais de 90% das pessoas que foram analisadas apresentaram alto índice de contaminação”.

Os povos indígenas de Yanomami e Yekwana acrescentaram ainda que não irão praticar extração mineira, reforçando que têm outras formas de sustento.

As nossas riquezas são os nossos conhecimentos tradicionais, a nossa saúde, nossos rios limpos e as nossas crianças crescendo felizes. O nosso trabalho não é o garimpo, o nosso trabalho é a roça [plantação], é o artesanato, temos as nossas formas próprias de gerar rendimento a partir de nossos conhecimentos sobre a floresta. O nosso conhecimento tem mais valor que o ouro", concluíram.