Um ensaio clínico, realizado nos Estados Unidos da América, conseguiu reduzir a sensibilidade aos alergénios do amendoim, com uma exposição gradual à proteína durante seis meses. Os resultados, apresentados no domingo numa conferência da American College of Allergy, Asthma & Immunology (Colégio Americano de Alergias, Asma e Imunologia), em Seattle, podem vir a traduzir-se no primeiro medicamento oral que controla as reações alérgicas ao amendoim em crianças.

Cerca de 250 milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas por alergias alimentares e a alergia ao amendoim está entre os tipos de alergias mais comuns. Uma em cada 50 crianças norte-americanas é alérgica a amendoins. Os sintomas são falta de ar, inchaço nos lábios e arritmia cardíaca. As alergias ao amendoim provocam mais mortes por anafilaxia do que qualquer outra alergia.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, o novo medicamento tem o potencial de "salvar vidas". O objetivo do tratamento não é curar a alergia ou permitir que as crianças comam manteiga de amendoim. O propósito é reduzir o risco de exposição acidental a vestígios de amendoim que podem desencadear uma reacção alérgica grave.

Depois de seis meses de tratamento, seguidos de seis meses de terapia de manutenção, dois terços de 372 crianças que receberam o tratamento puderam ingerir 600 miligramas ou mais de proteína de amendoim, o equivalente a dois amendoins, sem desenvolver uma reacção alérgica.

Isto não é uma cura, mas é um bom primeiro passo", disse The Guardian o médico James R. Baker. "Não tínhamos nada para dar a estas crianças que as impedisse de ter uma reação alérgica. É uma cisa magnífica de se ter".

Numa referência ao mesmo ensaio clínico, o canal norte-americano de televisão CNN refere que o estudo contou com 551 participantes em 66 centros de pesquisa de 10 países, com idades entre os quatro e os 55 anos diagnosticados com alergias ao amendoim.

A exposição gradual ao alergénio foi administrada sob a forma de cápsula em pó de amendoim, uma imunoterapia oral.

O conceito é "tratar uma alergia ao expor gradualmente as pessoas à mesma substância a que são alérgicas", afirmou Brian Vickery, o autor do estudo e diretor do Programa de Alergia Alimentar dos Cuidados de Saúde Infantil de Atlanta, nos Estados Unidos.

Ellis Glover foi uma das crianças norte-americanas que participou no estudo, após lhe ter sido diagnosticado aos três anos uma alergia ao amendoim. A menina começou por ter borbulhas perto da boca, depois de ter ingerido este alimento.

Tivemos sorte em descobrir dessa forma. Foi uma reação moderada”, afirmou à CNN a mãe da criança, Monica Glover.

A mulher acrescentou que a descoberta foi “angustiante”, depois de a criança ter fortes dores de estômago e vómitos: "Temos de viver com medo o tempo todo porque a Ellis pode comer inadvertidamente amendoim e pode ter uma reação fatal."

Monica Glover explicou que, durante o estudo, os pais foram sempre informados do objetivo e das doses que a filha iria tomar na Unidade de Pesquisa da Clínica Pediátrica do Hospital Infantil de Arkansas, nos Estados Unidos.

A Ellis começou com uma dose muito reduzida de uma cápsula de pó e foi aumentando a cada dia, sempre a ser observada pelos profissionais do hospital para controlar qualquer tipo de reação. Depois disso, levámos o medicamento para casa e Ellis tomou-o todos os dias, até terminar o tratamento”.

Os participantes no estudo receberam o tratamento em quantidades crescentes a cada duas semanas até chegarem à dose máxima. Após um ano, à data da conclusão do estudo, os participantes comeram, sob a supervisão de um médico, o equivalente a dois amendoins. 

Dois terços dos participantes foram capazes de tolerar essa dose de amendoim, sem nenhuma reação grave. Metade das pessoas analisadas conseguiram até ingerir doses equivalentes a quatro amendoins.

De um modo geral, os participantes não apresentaram reações graves ao tratamento ao contrário do que os investigadores previram.

Este tratamento tem realmente o potencial de transformar a vida das pessoas", sublinhou o autor do estudo.

Tratamento não pode ser visto como cura

Os resultados do estudo, publicados no New England Journal of Medicine, provaram que o tratamento pode proteger algumas pessoas contra a exposição acidental e a ingestão de uma quantidade muito reduzida de amendoim, mas Brian Vickery deixa um aviso: as cápsulas não podem ser vistas como uma cura para a alergia.

Isto não faz com que a alergia vá embora. O objetivo não é fazer com que as pessoas deixem de ser alérgicas a amendoim e que possam comer tudo o que quiserem", sublinhou

O objetivo é que as pessoas alérgicas a amendoim possam ter contacto com quantidades reduzidas do alimento ou até comerem-no inadvertidamente sem apresentarem reações graves.

O tratamento ainda não foi aprovado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (Food and Drug Administration – FDA, em inglês). A empresa bio-farmacêutica, Aimmune Therapeutics Inc., que produziu as cápsulas em pó, aguarda a aprovação da FDA para que sejam administradas em unidades hospitalares.

Ando a dizer aos meus pacientes que a minha esperança é que este medicamento esteja disponível no final do próximo verão”, afirmou o autor do estudo.

Brian Vickery adiantou que, embora o estudo tenha comprovado a eficácia do tratamento em crianças, os adultos poderão também beneficiar das cápsulas. 

Para Scott Sicherer, professor de pediatria e diretor do Instituto de Alergia Alimentar de Jaffe, da Escola de Medicina Icahn, em Mount Sinai, Nova Iorque, a investigação levada a cabo pela equipa de Brian Vickery é "o maior de três estudos para alergias ao amendoim".

O especialista realça que, embora o tratamento aumente gradualmente a tolerância das pessoas aos amendoins, não poderá ser administrado em casa sem um diagnóstico prévio e sério.

Não é algo para se tentar em casa. Não se pode tomar uma dose única e saltar dias de tratamento. Deve ser algo tomado continuamente porque, caso contrário, pode ter uma reação severa”, afirmou.

Scott Sicherer realça que, se este for o primeiro tratamento aprovado para pessoas alérgicas ao amendoim, “será muito surpreendente porque não existe nada parecido no mercado.”