A discriminação de minorias étnicas e de grupos marginalizados por parte das polícias europeias expôs o preconceito racial durante o confinamento aplicado devido à pandemia de Covid-19.

A conclusão é da Amnistia Internacional, que afirma que "polícias de toda a Europa visaram, de forma desproporcional, minorias étnicas e grupos marginalizados com violência, verificações discriminatórias de identidade, quarentenas e multas".

O relatório Policing the pandemic, que abrange 12 países (Bélgica, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Espanha, França, Grécia, Hungria, Itália, Sérvia, Reino Unido e Roménia), "expõe um padrão perturbador de preconceito racial".

Para a Amnistia Internacional, esse padrão está ligado a preocupações com o racismo institucional dentro das forças de segurança, bem como com outras questões que têm sido levantadas desde o surgimento dos protestos antirracistas que se têm protagonizado por todo o mundo, depois da morte do afro-americano George Floyd às mãos da polícia.

A violência policial e as preocupações com o racismo institucional não são novas, mas a pandemia de Covid-19 e a aplicação coerciva das regras de confinamento demonstram o quão prevalentes são, afirma Marco Perolini, investigador da Amnistia Internacional para a Europa Ocidental.

 

Aquela organização refere que a atuação das polícias europeias teve um "impacto desproporcional" nas áreas mais pobres, onde a proporção de moradores de grupos étnicos minoritários é maior. Como exemplo é referida a zona de Seine-Saint-Denis, em Paris, uma das áreas mais pobres da França continental, e que tem uma maioria de habitantes de raça negra ou de origem norte-africana. Nesta zona, o número de multas por violação do confinamento foi três vezes superior ao do resto do país, apesar de as autoridades defenderem que o cumprimento das regras foi semelhante.

Em Nice, no sul de França, a população de um bairro com minorias étnicas foi submetida a ordens de recolher mais longas em relação ao resto da cidade.

O padrão repete-se no Reino Unido, onde a proporção de negros revistados aumentou quase um terço na zona de Londres.

A Amnistia Internacional refere que nos casos da Bulgária e da Eslováquia, os governos aplicaram quarentenas obrigatórias em assentamentos, numa atitude que é vista como discriminatória para com as comunidades ciganas. O exército eslovaco foi mesmo mobilizado para cumprir essa ordem, numa medida que a Amnistia Internacional considera desadequada.

Na Bulgária, mais de 50 mil ciganos foram isolados do resto do país durante o confinamento, sendo que muitos deles foram afetdos pela escassez de alimentos. Um inquérito realizado em alguns desses bairros revela que o rendimento médio caiu 61% desde o início da quarentena obrigatória.

O problema também foi sentido entre os refugiados, requerentes de asilo e migrantes que vivem em campos e alojamentos partilhdados. Nestes casos, países como a Alemanha, o Chipre ou a Sérvia aplicaram quarentenas seletivas. Foram ainda registados desalojamentos forçados em França e na Grécia.

Também os sem-abrigo sofreram com medidas diferentes da restante população. Em Itália, a organização não governamental Avvocato di Strada identificou pelo menos 17 casos de pessoas sem-abrigo que receberam multas por não conseguirem cumprir medidas de isolamento. O mesmo terá acontecido em França, Espanha e Reino Unido.

António Guimarães