Divide o sobrenome com o marido, sim, mas não por causa do casamento. Haddad também é o nome de família de Ana Estela. O apelido significa “ferreiro”, em árabe, mas vêm de diferentes cidades do Líbano. Não são parentes. Tornaram-se. Ela trata Fernando por Fê e ele chama-a de Tê. Bem sucedida profissionalmente, a odontopediatra dedicou os seus 26 anos de carreira à vida académica e trabalho em dois ministérios. Até agora. Ser primeira-dama do Brasil não é algo que a seduz, mas por que está a lutar. A política, essa, sim. 

Filha de um funcionário do Banco do Brasil e de uma professora, a educação era uma prioridade. Embora o orçamento familiar fosse, nas suas palavras, “contado”, estudou em colégios privados até chegar à Universidade, que não mais largou. A vontade de ter mais atividade política existe. Retórica não lhe falta, ou não estivéssemos a falar de uma professora universitária na Universidade de São Paulo, que também já desempenhou funções nos ministérios da Educação e da Ciência.

O casal Haddad tem dois filhos, Frederico, 26 anos, advogado e Ana Carolina, 19 anos, estudante de Engenharia Civil. Ao retrato de família juntam-se também dois cães, o labrador Stick e a rafeira Atena, ou vira-lata como dizem os brasileiros. 

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Saiu do ministério quando o marido entrou

Tocam ambos violão, ela deleita-se com Chico Buarque. Andam numa “roda-viva” nestas lides da política. Há vários anos, já que ele foi ministro da Educação e prefeito da cidade de São Paulo. A 7 de outubro, o candidato do PT passou à segunda volta das eleições presidenciais com 29% dos votos e avisou que tem uma “arma” contra Bolsonaro, que recolheu 46%. Essa arma é “o argumento”, disse na altura. 

Lá vai cantando Chico Buarque (nem de propósito petista assumido e, claro, apoiante de Haddad) que "a gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega o destino pra lá". Embora as sondagens apontem para uma vitória do seu adversário, domingo é que é o dia D. 

Se Haddad ganhar, será Ana Estela a próxima primeira-dama. Uma posição que a deixa "desconfortável".

Deixa, e muito. É uma posição ingrata e chata de ocupar. Sempre teve essa sombra de coadjuvante. Na prefeitura, recriámos agendas para que eu não tivesse uma representação vazia.”., contou em entrevista à Universa.

Algo, de resto, incompatível com o seu modo de vida. No currículo, tem a assessoria dos ministros Cristovam Buarque e Tarso Genro. Trabalhou com políticas de educação superior; avaliou cursos e o desempenho dos estudantes. Nessa altura, chegou a responder às cartas mais complexas que eram endereçadas ao, na altura presidente Lula da Silva. Foi, até, da análise de reclamações relativas às dificuldades com que as pessoas se deparavam para estudar que ajudou a desenvolver o ProUni, Programa Universidade para Todos. Estava no ministério quando o marido foi nomeado para tutelar a pasta da Educação.

Pedi exoneração. Fiquei feliz pelo Fernando mas triste por mim, porque estava muito envolvida e a gostar do que fazia.”.

Orgulha-se de ter estado também na origem do programa Telessaúde Brasil. Foi diretora de gestão da educação em saúde durante sete anos, no ministério, ocupando-se da formação de profissionais do setor e revalidação de diplomas médicos, entre outros.

O sonho da política e as referências

Com o pé na política executiva, foi convidada várias vezes pelo PT para entrar na política partidária, para ser candidata. Recusou sempre. 

A nossa família vive num turbilhão com um só candidato em casa, imagine dois”.

Admite porém o sonho de estar, ela própria, mais a sério na política. Tem referências, desde já. Admira Michelle Obama, “que desempenhou o papel de representação da maior potência do mundo de forma altiva e contemporânea”. Na campanha da primeira volta, até dançou com o marido ao estilo presidencial norte-americano (ver galeria de fotos).

Dentro do Brasil, a referência é “dona Marisa”, mulher de Lusa que morreu em 2017. “Sinto até hoje a perda dela. Sempre procurou agir de forma digna, discreta e sem se deslumbrar com o espaço que estava ocupando”, afirmou na mesma entrevista.

Se vier a ser primeira-dama não sabe "ainda” que legado quer deixar. Ainda assim, defende que tem “experiência” na bagagem para ajudar estados e municípios a implementar programas parecidos com os que já ajudou a pôr em prática no passado: apoiou a comitiva de Haddad enquanto prefeito de São Paulo, na elaboração do plano de governo na área da saúde; participou num programa de liderança executiva em Harvard, no Centro de Desenvolvimento Infantil; em Yale (EUA), a estudar modelos de visitas domiciliares feitas por agentes de saúde e em França para ver de perto o programa de estímulo financeiro do governo para mulheres que têm filhos não precisarem deixar de trabalhar.

"Ele é muito assediado"

Por agora, dá “sugestões”, aparece em alguns atos de campanha e tenta conferir “alguma estabilidade” na atividade política do marido. "Mas, temos uma situação onde a recíproca não é tão verdadeira. Preferiria que a gente pudesse ser companheiro do outro, e assim como eu faço, ele pudesse me acompanhar também. A realidade é que, de alguns anos para cá, ele não tem podido”. Estas presidenciais, em particular, são uma prova de fogo:

É um desafio muito grande para ele, na situação em que está o presidente Lula, e isso nos sensibiliza demais. Tem sido importante estar com o Fernando por todas as delicadezas envolvidas. Preciso estar colada com ele”.

Seja como for, e porque é uma mulher de trabalho e de compromissos, não se retirou por completo da Universidade: a cada quinze dias está na Faculdade de Odontologia para dar uma aula e orientar os seus estudantes de pós-graduação.

Ainda tem de lidar com piropos constantes ao marido. "Ele é muito assediado. A pessoa é mais ostensiva na forma de olhar, de vir tirar uma foto, de se encostar nele. Agarra, se insinua. Chegam e dizem: 'Você é muito gato'. Estou do lado e penso: 'Será que a pessoa não está vendo que estou aqui?'". O pensamento torna-se-lhe inevitável, mas garante que não perde tempo com ciúmes. 

Temas que evita e não evita

Politicamente, evita temas sensíveis, como o abordo, um tema “espinhoso” – “Discutir aborto antes de proporcionar uma situação de igualdade entre homens e mulheres é prematuro. “É um tema de alta relevância, só acredito que a gente não vai contribuir se o trouxer à tona agora”

Já no que toca ao papel das mulheres na sociedade, aí não se coíbe de dizer umas coisas e responder a Bolsonaro, que recorre frequentemente a comentários machistas, como quando disse à deputada federal Maria do Rosário, que só não a violaria porque "ela não merecia". Outra frase famosa do candidato é: “No quinto filho, fraquejei e veio uma mulher”. Também já afirmou que as mulheres devem ter salários mais baixos porque engravidam.

A gente vem vivendo um tempo, uma contemporaneidade, onde nós mulheres, de alguma forma, já não conseguimos mais compactuar com certas coisas, não dá mais para aceitar certos tipos de posturas, como essa radicalmente colocada numa situação de atraso. É até impensável, às vezes a gente lê de novo, ouve de novo, para ver se é isso mesmo que ouvimos.”.

Aqui numa entrevista Fórum, afirma ainda que “todas nós mulheres no momento em que a gente nasce mulher, e passa desde criança por todo processo de socialização, tem uma luta colocada, que é inegável. Todas nós sentimos e vivenciamos. Quando olho a minha filha e minha geração atual, vejo uma mulher mais empoderada, que concede menos.”.

Na reta final da campanha para a segunda volta, nenhum Haddad atira a toalha ao chão. Foi que Ana Estela assegurou, há dois dias, ao Jornal do Brasil.

"É um momento de muita ebulição, de trabalhar duro até o último minuto. Nós vamos trabalhar até o fim do jogo. Vamos dar tudo da gente, expor o projeto, conversar, fazer tudo aquilo que a gente acredita, sem usar métodos e estratégias que a gente não aprova (...) A minha experiência é que a bola está rolando. Às vezes, parece que estamos estacionados, mas pode vir uma onda”.

Lá continua Chico Buarque a cantar: "Tanto mar, tanto mar/ sei, também, como é preciso/navegar, navegar".