«Depois de sentir os primeiros tremores, percebi imediatamente que não tinha outra saída senão colocar-me debaixo da minha secretária. Ficámos sem electricidade e uma nuvem de pó instalava-se. Quando o solo deixou de serpentear o pânico estava instalado na maioria das pessoas, tentei manter a calma e chamar pelos meus colegas que estavam no escritório comigo, ao mesmo tempo ouvia pessoas a gritar, outras que batiam desesperadamente nas paredes e portas. Eu não tinha ideia de como sair dali.

Debaixo dos escombros, vi a luz de uma lanterna que um colega tinha. Tentei manter a calma e disse-lhe «estás com um penteado espectacular». Saíram todos primeiro que eu, por um buraco que o tremor criara. A minha posição era mais complicada.

Assim que tentava perceber como podia sair dali, mais uma réplica que me obrigava a colocar novamente a cabeça debaixo da mesa. Finalmente, e depois de pensar «eu não vou morrer aqui», comecei a tirar tudo o que me impedia a passagem em direcção à luz. Aquela luz ao fundo do túnel. Ouvia os meus colegas lá fora a chamarem-me. Sem chinelos, mas também muito bem penteadinha, com escoriações e equimoses espalhadas pelo corpo. Banhada de pó, que já dificultava a respiração, saí. Estou viva!

A partir dai, fui procurar malas de primeiros socorros e comecei a ajudar os feridos. Um cenário catastrófico: amputados, fracturas expostas, cérebros à vista. Tudo entre os gritos e com réplicas do tremor. Parecia estar num filme. As pessoas tornavam-se violentas. Queriam ser ajudadas umas primeiro do que as outras. Fiz o que pude até à exaustão. Aí, parei e apercebi-me da realidade.

Ambos os edifícios das Nações Unidas tinham caído, desapareceram. Percebi que tinha perdido ali imensos amigos. Consegui falar com uma amiga que partilha casa comigo. Estava debaixo dos escombros. Só pensava na morte. Tentei ficar junto dela durante as nove horas que esteve ali debaixo. Saiu com esmagamento, em choque. Mas está viva!

«Procurei fazer o meu luto»

Pela madrugada dentro, fomos todos evacuados para a base logística, onde tudo estava mais tranquilo. Todas as pessoas procuravam informações e confirmar a sobrevivência dos mais queridos. Até ao dia de hoje não sei de alguns. As buscas continuam, mas, como é óbvio, as hipóteses de sobrevivência são reduzidas. As réplicas continuam e temos sempre a sensação que o chão está a tremer.

A Mariana Palavra e o João (polícia canadiano), ambos de origem portuguesa, estão bem! À noite, dormimos como podemos. Dentro de carros, no jardim ou nos escritórios. Os tremores não nos conseguem embalar. Mantemo-nos por aqui, onde as condições mínimas estão asseguradas. Não vamos ser evacuados, quem quiser e tiver passaporte/visa pode ir para Miami. Quem não tem pode sair para a Rep. Dominicana. Eu fico cá, sem dúvida!

Já consegui ir a casa e recuperar o básico, tanto para mim como para a minha amiga! Estava intacta mas muito, muito desarrumada. Nas ruas, encontramos o caos, a confusão. Quem pode, está a dirigir-se para a Rep. Diminicana, pois a maioria da população não tem acesso a água potável e alimentos. Prevê-se um aumento da criminalidade caso a ajuda humanitária seja escassa. O instinto de sobrevivência é conducente a violência. No entanto, o céu de PAP [ndr: Port-au-Prince] vê já muitos aviões e hélis.

Foi montado um hospital, onde estive a colaborar. No entanto, reuni já com o conselheiro do staff e com todos os que estão formados para a intervenção na emergência psicológica. Neste momento, estamos organizados e a intervir. Tendo eu também sido vítima desta situação, procurei fazer o meu luto e restabelecer o equilíbrio emocional, com sucesso. Agora sim, mudo os objectivos de trabalho que me trouxeram até aqui, mas garantidamente que não deixarei de trabalhar!»