A chegada de brigadas caninas e polícia de intervenção rápida para controlar as dezenas de jovens que se concentram desde manhã junto ao tribunal provincial de Luanda gerou revolta e exaltou os ânimos, registando-se arremesso de objetos.

A tensão agravou-se entre os jovens, que exigem a libertação dos cerca de cem manifestantes detidos no sábado, quando começaram a chegar as forças especiais recebidas aos gritos de “assassinos”.

Enquanto alguns dos jovens tentavam colocar pneus na estrada em frente ao tribunal, a polícia, acompanhada de cães, tentava dispersar os mais agitados.

Um dos jovens, sentado no chão e com uma mordedura na perna, gritava: “João Lourenço, eu te odeio”.

Entretanto os ativistas prometem não desistir e continuar a lutar pelos seus direitos.

Em declarações à Lusa, Francisco Teixeira, do Movimento dos Estudantes de Angola, um dos detidos à espera do julgamento, referiu ter sido contactado na manhã de sábado pelo comando provincial, dizendo que a marcha não se poderia realizar porque tinha sido impedida.

Mas nós viemos, para provar ao MPLA que o país não se rege à base da vontade das pessoas, rege-se pela Constituição e a Constituição diz que nós podíamos fazer a manifestação”, afirmou, referindo-se ao Movimento Popular de Libertação de Angola, partido no poder desde a independência.

 

Queriam criar um decreto para que a vontade de algumas pessoas, os egos fossem satisfeitos, mas nós, todos os que fomos, dissemos que não”, prosseguiu, declarando ser “com espírito patriótico que quer libertar o país que disse estar a viver uma ditadura branqueada”.

Questionado sobre os motivos da sua detenção, disse que “só a polícia pode justificar”.

Agrediram-nos desnecessariamente, tiraram-me o dinheiro e o telefone, são bandidos, são deliquentes”, acusou, prometendo não desistir de lutar.

 

Temos uma ideia muito concreta do país que nós queremos, a democracia tem de ser completa”, salientou.

O ativista e promotor da manifestação, Dito Dali, disse à entrada da sala de audiências que os jovens já tinham prometido fazer das ruas de Luanda os seus escritórios, “enquanto os problemas que apoquentam os cidadãos não forem resolvidos”.

Dito Dali afirmou-se disposto “a lutar” para defender os seus direitos e reafirmou ter havido uma morte durante o protesto, que a polícia nega.

Houve um ativista, de nome 'Mamã África', do Cazenga, que morreu”, afirmou, acrescentando que terá sido “brutalizado pela policia” que posteriormente recolheu o corpo e o levou para parte incerta.

Lamentou a repressão “desproporcional” que o Presidente da República “arrogantemente” decidiu impor aos manifestantes e considerou que faz sentido que o protesto convocado pelos movimentos cívicos, mesmo que apartidários, seja apoiado por forças políticas.

Nós escrevemos para várias forças políticas e aderiram. Estamos juntos quando se trata do interese público, porque além de serem da UNITA são cidadãos”, realçou.

No sábado, a tentativa de uma manifestação organizada por jovens da sociedade civil, com apoio de dirigentes do maior partido da oposição angolana - União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) - e de outras forças da oposição, foi frustrada pelas autoridades, tendo resultado em 103 detenções, ferimentos de polícias, e de manifestantes em números não revelados, além da destruição de meios das forças da ordem.

Os protestos ficaram marcados também pelo arremessar de pedras, colocação de barricadas na estrada com contentores de lixo e pneus a arder pelos manifestantes.

A marcha visava reivindicar melhores condições de vida, mais emprego e a realização das primeiras eleições autárquicas em Angola.

Sobre os distúrbios e vandalismo que ocorreram no sábado, Dito Dali atribuiu os atos a “infiltrados” dos serviços secretos, que visam criar “arruaça para depois responsabilizar os manifestantes”.

/ LF