A covid-19, que já causou mais de 40 milhões de doentes em todo o mundo, e 1,1 milhões de mortos, está a agravar o problema das bactérias multirresistentes, as chamadas superbactérias.

A comunidade científica está preocupada com a escalada desta crise, que o novo coronavírus veio agravar, particularmente devido ao uso, nem sempre adequado, de antibióticos para tratar os doentes, que podem, ou não, ter uma infeção bacteriana.

Ao contrário da covid-19, que surgiu repentinamente, a crise das superbactérias está em ebulição. Mas já é uma pandemia, já é uma crise global e está a piorar devido à covid-19", alertou a professora de Medicina da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, Steffanie Strathdee, entrevistada pelo Business Insider.

A "marcha lenta" das superbactérias poderá ser catastrófica, no entender dos especialistas, e até a Organização Mundial da Saúde (OMS) já estimou que, dentro de 30 anos, cerca de dez milhões de pessoas vão morrer de infeções resistentes a antibióticos. Atualmente, as bactérias multirresistentes causam perto de 700.000 mortes todos os anos.

A prescrição excessiva de antibióticos e o consequente consumo excessivo de antibióticos, inclusive na cadeia alimentar, está a tornar cada vez mais difícil tratar infeções bacterianas como, por exemplo, algumas estirpes de tuberculose e salmonela.

É cada vez mais provável que uma infeção bacteriana seja muito difícil de tratar, se não mesmo intratável, e infeções bacterianas que não se conseguem tratar não é bom. Matam", sublinhou a imunologista Sarah Fortune, da Universidade Harvard, à mesma publicação.

Lance Price, do gabinete de estudos de resistência a antibióticos da Universidade George Washington, vai mais longe, alertando para o que, num futuro próximo, poderá ocorrer com a E. coli, responsável por milhões de infeções urinárias anualmente.

A E. coli poderá matar inúmeras mulheres jovens. Aquilo que seria uma normal infeção urinária poderá acabar na corrente sanguínea e tornar-se fatal [devido à resistência aos antibióticos]", perspectivou.

Um estudo divulgado em maio revelou que 72% de 2.000 doentes de covid-19 hospitalizados em todo o mundo tomaram antibióticos, apesar de apenas 8% terem infeções bacterianas ou fúngicas.

Os antibióticos são medicamentos destinados ao tratamento de infeções causadas por bactérias, não atuando sobre infeções causadas por vírus, como é o caso da covid-19.

A própria OMS chegou a divulgar um guia de orientação para o tratamento com antibióticos, recomendando, expressamente, que não deveriam ser administrados no tratamento da covid-19 em casos suspeitos ou leves e mesmo nos moderados só após confirmação de infeção bacteriana.

"O uso generalizado de antibióticos deve ser desencorajado, uma vez que sua aplicação pode levar a taxas maiores de resistência bacteriana, o que vai impactar o volume de doenças e mortes durante a pandemia de covid-19 e além", consta no documento da Organização Mundial da Saúde.

Luciano Azevedo, médico do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, no Brasil, que trabalha nos cuidados intensivos, lembra que "quando se sabe que a taxa de coinfeção é baixa, não é preciso prescrever antibiótico".

"O uso de antibióticos no tratamento da covid-19 vem muito do facto de que é uma doença nova, e ninguém conhecia a taxa de coinfecção. Para a gripe comum, pode haver coinfecção em 30 a 40% dos casos. Mas para a covid-19, estudos têm sugerido 5 a 7,5% de coinfecção", explicou, em entrevista à BBC.

Um estudo recente, envolvendo 38 hospitais do estado do Michigan, nos Estados Unidos, mostrou que 56,6% de 1.705 pacientes hospitalizados com covid-19 receberam antibióticos sem terem sido identificadas as bactérias ou fungos que estavam a causar a infeção. Destes doentes, apenas 3,5% tinham coinfecção bacteriana, que foi confirmada por análises. 

Outro estudo, com dados de 99 pacientes tratados no hospital Jinyintan de Wuhan, na China, mostrou que 71% recebeu antibióticos, ainda que apenas 1% apresentasse coinfecção bacteriana. 

Catarina Machado