O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) abriu esta terça-feira a 76.ª Assembleia Geral, num encontro marcado pelas alterações climáticas e pela pandemia da covid-19.

Numa das primeiras palavras, António Guterres afirmou estar ali para "fazer soar o alarme", dizendo que "o mundo precisa de acordar". Falando na ponta de um abismo, o responsável diz que o planeta nunca esteve tão ameaçado e dividido, enfrentando atualmente "a maior cascata de crises das nossas vidas".

A crise pandémica da covid-19 exacerbou as desigualdades, a crise climática está a esmagar o planeta", disse, lembrando também as crises humanitárias na Etiópia, Afeganistão ou Iémen.

António Guterres fala também no surgimento de desinformação, que divide as pessoas e paralisa as sociedades: "Os direitos humanos estão sob fogo e a ciência está sob assalto".

Para o secretário-geral da ONU, a resposta à crise que surge nas economias mais frágeis está a surgir tarde demais. Neste ponto, aproveitou para fazer uma ponte para a gestão da pandemia, referindo uma "imagem que pinta a história dos nossos tempos: a imagem que vemos de parte do mundo de vacinas contra a covid-19 no lixo, expiradas e sem serem utilizadas".

Apesar do tempo recorde do desenvolvimento das vacinas, a "falta de vontade política" e outros problemas provocam uma desigualdade entre os países mais desenvolvidos e o continente africano.

Passámos o teste da ciência, mas estamos a ter negativa na ética", continuou.

Citando os recentes dados sobre as alterações climáticas, e referindo os recentes desastres climáticos, incluindo em Nova Iorque, cidade que acolhe a reunião, António Guterres salientou que "não é tarde para manter vivo o objetivo de 1,5 graus do Acordo de Paris".

Assim, o secretário-geral da ONU pede mais esforços, até porque os atuais níveis de emissões de gases com efeitos de estufa continuam a aumentar.

As pontes de Guterres

Apesar dos problemas, António Guterres acredita que ainda é possível chegar a um bom porto, mas para isso, alerta, é preciso construir "seis grandes pontes" para derrubar as barreiras existentes.

Em primeiro lugar, diz o secretário-geral da ONU, será preciso construir a ponte da paz, uma vez que, "em grande parte do mundo", citando os exemplos do Afeganistão, Etiópia ou Israel e Palestina, a paz e a estabilidade continuam a ser "um sonho distante".

A relação entre China e Estados Unidos foi também relembrada, numa "guerra fria" que poderá ser muito mais imprevisível que a primeira (entre Estados Unidos e Rússia).

Em segundo lugar, António Guterres fala na ponte do clima, onde será necessária a construção de confiança entre Norte e Sul, mas também "mais ambição" de todos os países em várias áreas, a começar pelo comprometimento de que se atinge a neutralidade carbónica por volta de meio do século.

Neste sentido, pede-se que haja "mais ambição no financiamento", nomeadamente dos países em desenvolvimento, para onde devem ser mobilizados todos os recursos necessários.

Não esperem pelos outros para fazerem, façam a vossa parte", pediu, apelando também à ação dos governos, nomeadamente através da criação de "empregos verdes" e da aplicação de impostos sobre as indústrias emissoras.

Em terceiro lugar, António Guterres quer a construção da ponte entre os pobres e os ricos, o que "começa por acabar a pandemia para todos e em todo lado", o que exige um plano global de vacinação que assegure que as vacinas chegam a 70% da população mundial na primeira metade de 2022.

Para isso, será importante a coordenação entre as diferentes empresas farmacêuticas, mas também a aposta dos países mais ricos, o que entronca na questão económica, onde exige uma grande diferença entre o investimento na recuperação entre os desenvolvidos e aqueles que estão em desenvolvimento.

Em quarto lugar, a ponte que divide os géneros. O português enfatizou também os efeitos negativos da desigualdade de género e apelou para sociedades com “representação mais igual”, que são, consequentemente, “mais estáveis e pacíficas”.

A igualdade das mulheres é essencialmente uma questão de poder. Devemos transformar urgentemente o nosso mundo dominado pelos homens e mudar o equilíbrio de poder, para resolver os problemas mais desafiadores de nossa época”, considerou o antigo alto comissário das Nações Unidas para Refugiados.

Por outro lado, e em quinto lugar, a ponte digital. O acesso à internet tem de se tornar um direito humano, defendeu Guterres, dizendo que até 2030 todo o mundo deveria ter ligação à internet, mas com estratégias para combater o armazenamento de dados pessoais que estão a ser usados comercialmente para lucros corporativos ou ainda pelos Governos para “controlar ou manipular comportamentos, violando direitos individuais ou de grupo e debilitando democracias”.

Por último, a ponte geracional, para as cerca de 11 mil milhões de pessoas que se estima deverem nascer até final do século, são necessários mecanismos para dar mais voz aos jovens, para garantir educação de qualidade e para dar mais poder àqueles que serão herdeiros do mundo de hoje.

A esperança ainda existe, mas necessita que “todos façam a sua parte” sem demoras e com cooperação global e com um multilateralismo renovado, concluiu o secretário-geral da ONU.

António Guimarães