Os talibãs deram a todos os ex-funcionários do governo deposto o prazo de uma semana para entregarem todos os bens públicos e armas, dando mais um passo na consolidação da sua administração no país.

“Informa-se que, todos os que têm na sua posse meios, armas, munições e outros bens do governo, entreguem os objetos mencionados aos órgãos competentes do Emirado Islâmico [como os talibãs designam o Afeganistão] no prazo de uma semana”, disse, através da rede social Twitter o principal porta-voz dos talibãs, Zabihulla Mujahid.

O porta-voz pediu a todos que se rendam dentro do prazo indicado, para que “não haja necessidade de processar ou dar tratamento legal aos infratores que venham a ser encontrados”.

Embora os talibãs tenham conquistado o poder em 15 de agosto, os líderes do movimento ordenaram aos seus combatentes para não entrarem nas casas de funcionários públicos, nem confiscarem propriedades do Estado até que houvesse uma decisão dos líderes.

O apelo de Mujahid à rendição voluntária acontece no dia em que os líderes fundamentalistas devem anunciar a formação do novo governo, que os talibãs esperam ter pronto antes da retirada das tropas internacionais, em 31 de agosto.

O movimento dá, assim, mais um passo para tomar o controlo total do país enquanto os Estados Unidos e os aliados internacionais cumprem a últimas horas de presença da força internacional no Afeganistão.

França, Turquia e Itália concluem retirada

A França anunciou este sábado que concluiu a operação de retirada do Afeganistão, que abrangeu cerca de três mil pessoas, e a Turquia também deu por terminada a retirada do seu pessoal, excetuando um pequeno contingente.

O anúncio de França foi feito pela ministra da Defesa, Florence Parly, que através da rede social Twitter escreveu que “esta operação está concluída, mas França continua mobilizada para permitir a saída de todos aqueles que necessitam de proteção”.

Durante esta operação, França retirou do Afeganistão cerca de três mil pessoas, entre as quais se contam mais de 2.600 afegãos, tendo garantido que tentará ajudar mais pessoas a sair depois de 31 de agosto – data limite para a retirada das forças estrangeiras.

Parly e o ministro dos Assuntos Estrangeiros de França, Jean-Yves Le Drian, emitiram um comunicado conjunto em que referem que “a França continuará, também depois de 31 de agosto, por todos os meios possíveis, o seu trabalho de proteção de todos os que estão ameaçados”.

“Prosseguiremos os nossos esforços junto dos responsáveis talibãs para garantir que não colocarão nenhum obstáculo à saída daqueles que assim o desejem, após o dia 31 de agosto”, salientam no mesmo comunicado conjunto.

Os mais de 2.600 afegãos retirados por França em menos de duas semanas, no âmbito da operação ‘Apagam,’ somam-se aos cerca de 1.500 que já haviam sido retirados antes de 15 de agosto.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciou também este sábado que o país retirou o seu pessoal do Afeganistão, com exceção de um pequeno contingente, dando por concluída a operação.

“Até hoje, trouxemos para o nosso país todos os nossos civis. Resta uma equipa de técnicos, um número reduzido, mas para além deles retirámos do Afeganistão todas as nossas equipas”, referiu Erdogan, em declarações proferidas durante uma visita a Serajevo.

Segundo adiantou, a equipa de pessoal turco que ainda ficou no Afeganistão é composta por cerca de 30 pessoas.

O presidente da Turquia confirmou que o seu país tem estado em contacto oficial com os talibãs, manifestando desejo de que estes encontros continuem.

“Os talibãs de hoje não são os de antes. O que importa é o que fazem agora, o que farão no futuro, não o que faziam antes”, disse Erdogan no final da sua visita a Serajevo.

Itália também já deu por terminada a operação de evacuação do Afeganistão, que permitiu pôr a salvo 5.100 afegãos, número que, segundo as autoridades, a colocam como o país da UE com o maior número de afegãos retirados.

“Quero agradecer a todos os que trabalharam nestes últimos dias para retirar cerca de 5 mil afegãos”, referiu hoje o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Luigi di Maio, no aeroporto de Fiumicino, em Roma, depois de aterrar o último avião da ponte aérea humanitária coordenada pela Força Aérea italiana.

Aquele número, precisou di Maio, faz de Itália “o primeiro país da União Europeia (UE) em número de afegãos retirados”.

O último avião da ponte aérea montada por Itália aterrou hoje na capital do país com 58 afegãos a bordo, trazendo também pessoal diplomático e de segurança que ainda se encontrava em Cabul, num total de 110 pessoas, incluindo o vice-cônsul Tommaso Claudi, cujas fotografias, a ajudar crianças a passar para o interior do aeroporto, se tornaram virais.

Stefano Pontecorvo, alto representante civil da NATO, e os 'carabinieri' que permaneceram em Cabul até agora estavam também entre os passageiros do Boeing 747 que aterrou esta manhã em Roma e que marcou a conclusão da operação de evacuação montada por Itália.

“Ainda há tantos afegãos à espera para serem evacuados e não podemos mais fazer isso com o transporte aéreo, mas estamos prontos, com as Nações Unidas, com os países que fazem fronteira com o Afeganistão, a trabalhar para garantir que essas pessoas, que trabalharam connosco nos últimos 20 anos, possam ter a mesma possibilidade", referiu di Maio.

Na mesma ocasião, o ministro aludiu que após o fim desta primeira fase, começa outra mais difícil.

“Uma segunda fase em que nosso imperativo deve ser não abandonar o povo afegão, não abandonar as mulheres afegãs, não abandonar as jovens mulheres afegãs, não abandonar todos aqueles que nestes últimos anos mostraram uma grande vontade de evoluir, de mudar ”, acrescentou.

As autoridades italianas anunciaram, entretanto, a instalação de um acampamento em Avezzano, no centro do país, para colocar de forma temporária cerca de 2 mil afegãos. Este campo servirá para que possam fazer aqui a quarentena e vacinarem-se contra a covid-19 enquanto esperam por alojamento.

/ CP