Na véspera da chegada das tropas do Azerbaijão, os habitantes da aldeia de Charektar, perto de Nagorno-Karabakh, estão a incendiar as suas casas antes de fugirem para a Arménia.

“Hoje é o último dia e amanhã os soldados do Azerbaijão estarão aqui”, explica um dos habitantes, com a garganta apertada, enquanto encharca uma camisola velha em gasolina e a coloca em chamas juntamente com um pedaço de madeira, contemplando o espetáculo do fogo na sua casa.

Apesar das chamas já consumirem grande parte da sua casa, o homem vai atirando tábuas a arder para ter a certeza que ficará tudo em cinzas, noticia a agência AFP.

“Esta é a minha casa, não posso deixá-la para os turcos", atira, numa referência à forma como os arménios chamam aos azeris.

“Todos estão a queimar as suas casas hoje (…) Deram-nos até à meia-noite para ir embora”, acrescenta.

Na terça-feira, Erevan e Baku assinaram um acordo de paz após intervenção da Rússia, que pôs termo a seis semanas de guerra e prevê a entrega ao Azerbaijão de vários territórios ocupados pela Arménia no conflito entre 1992 e 1994.

Em simultâneo, a Arménia conservará o controlo do enclave do Nagorno-Karabakh, onde antes do conflito iniciado em 27 de setembro viviam 150.000 pessoas.

No entanto, Erevan perde o controlo da segunda cidade Shushi (Shushá para os arménios), que foi conquistada nos últimos dias deste conflito pelas forças azeris.

Na zona de fronteira com Nagorno-Karabakh, a aldeia de Charektar marca a entrada para a região de Kalvajar, um vale estreito que serpenteia ao longo do rio Tártaro no sopé de altas montanhas e ingremes penhascos.

Sendo uma das principais áreas habitadas, mais de metade das casas daquela aldeia, muitas delas casas modestas de camponeses das montanhas, foram incendiadas nas últimas 24 horas pelos seus proprietários antes de partirem com a maioria dos pertences possível.  

Quando e como vão chegar as forças do Azerbaijão ainda ninguém sabe bem. As autoridades de Nagorno-Karabakh garantiram que a estrada para Kalvajar, nesta altura a única via que liga o enclave à Armênia, permanecerá sob o seu domínio e soldados russos estão a circular por lá.

Nesta mesma estrada, a migração é grande e o tráfego é incessante em direção à cidade de fronteira arménia, Vardenis.

Também prestes a ser abandonada, a base militar de Kalvajar vive momentos de agitação. Os soldados ainda presentes vão embalando munições, deslocando veículos avariados e recolhendo tudo o que é possível e queimando também papéis.

/ RL