Aconteceu no ano passado em Moscovo, na Rússia: Mijaíl Jachaturián, pai de  Krestina, Angelica e Maria, foi morto pelas filhas, que à data tinham 17, 18 e 19 anos. O crime foi motivado por anos de agressões: no dia em que mataram o progenitor, as três irmãs alegam que tinham sido agredidas pelo pai com spray de gás pimenta porque não tinham posto a sala de casa em ordem. Esperaram que o pai adormecesse, bateram-lhe com um martelo e golpearam-no com uma faca de cozinha até à morte.

De acordo com os relatórios da polícia, as três irmãs sofriam há anos abusos físicos e sexuais. A mãe das jovens, Aurelia Dunduc, tinha sido obrigada pelo marido a sair de casa em 2015, sob ameaças de morte. Fez várias queixas à polícia, sem qualquer consequência. 

O advogado das jovens afima que as três estavam "aterrorizadas" e que agiram em legítima defesa, porque "viviam escravizadas e temiam pelas suas vidas". Estão acusadas de homicídio premeditado e as duas irmãs mais velhas arriscam penas até 20 anos de prisão. A mais nova, por ser menor na altura do crime, poderá ser condenada até dez anos de cadeia. 

O caso de Krestina, Angelica e Maria, que estão em liberdade depois de terem pago fiança, mas obrigadas a manterem-se afastadas e sem qualquer contacto entre elas, está a mobilizar a opinião pública russa num país onde a violência doméstica é encarada com benevolência e branqueada sempre que possível. Não há estatística sobre o número de crimes porque não se faz. Um estudo de 2012 do Ministério do Interior russo calculava que no país 600 mil mulheres sofressem por ano de violência doméstica. A ONU estimava, já em 2010, que a cada ano entre 12.000 a 14.000 mulheres fossem assassinadas pelos companheiros ou familiares. 

A Rússia é também um dos poucos países onde não existe uma lei específica para os casos de violência doméstica. Em 2017, o  governo avançou mesmo com a despenalização de algumas formas de agressão dentro da família para os agressores sem antecedentes. Uma primeira agressão, que não tenha sequelas graves, é castigada com 15 dias de prisão e uma multa de 400 euros. Se for registada uma segunda agressão no mesmo ano, a multa será de 500 euros e a pena de três meses de prisão, ou 240 horas de trabalho comunitário.

/ SC