A polícia italiana desencadeou uma larga operação de inspeção em Roma, onde milhões de doses da vacina da AstraZeneca eram mantidas. A história foi avançada esta quarta-feira pelo diário La Sampa, que refere que estas doses estariam prontas para serem exportadas para o Reino Unido, citando fonte europeia.

Segundo confirmou a Bloomberg junto de fonte da União Europeia, tratam-se de 29 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, que estavam a ser armazenadas na capital italiana num armazém da empresa Catalent, que opera na área de produção de medicamentos.

O número de doses armazenadas equivale a mais do que a União Europeia já recebeu, numa altura em que a AstraZeneca continua a encontrar dificuldades para cumprir o acordo estabelecido. Recorde-se que, inicialmente, a farmacêutica anglo-sueca tinha prometido mais de 90 milhões de doses no primeiro trimestre. Esse número foi revisto duas vezes, sendo agora de 30 milhões de doses até ao final de março, sendo que chegaram menos de 17 milhões até ao momento.

A operação das autoridades italianas foi precisamente despoletada pela discrepância dos dados fornecidos pela AstraZeneca relativamente ao número de doses em produção e àquelas que estavam efetivamente a ser entregues.

As autoridades europeias acreditam que a farmacêutica estava a tentar exportar as doses para o Reino Unido sem o conhecimento europeu, até porque a AstraZeneca continua a cumprir escrupulosamente o contrato estabelecido com os britânicos.

Segundo o New York Times, a União Europeia afirma não ter encontrado evidências de que as vacinas em causa seriam exportadas para o Reino Unido. A mesma fonte diz que a AstraZeneca garantiu que das 29 milhões de doses encontradas, 16 milhões seriam para a União Europeia e as restantes 13 milhões para os países que estão abrangidos pelo programa Covax, que prevê dar vacinas aos países com maiores dificuldades.

A empresa justificou dessa forma a ausência de comunicação, até porque a exportação de vacinas por razões humanitárias não tem de ser controlada pela União Europeia.

Ainda segundo o La Stampa, muitas das doses foram produzidas pela Halix, empresa subcontratada pela AstraZeneca para produzir vacinas nos Países Baixos. Posteriormente foram embaladas na Catalent.

Em declarações à Bloomberg, a fonte europeia deixou críticas à farmacêutica, dizendo que, quando pressionada, a empresa é capaz de entregar vacinas em maiores quantidades.

A Halix é uma das peças chave de toda a polémica, uma vez que a União Europeia pretende ficar com as doses ali produzidas, que inicialmente estavam previstas para entrega no Reino Unido. Assim, britânicos e europeus estão num braço de ferro por milhões de doses de vacinas, com os 27 Estados-membros a alegarem a falta de cumprimento por parte da AstraZeneca.

As doses em causa são produzidas pela Halix e pela Thermo Fisher Scientific, sendo que os lotes da primeira empresa ainda não têm aprovação garantida pela Agência Europeia do Medicamento para uso comunitário, autorização essa que não foi pedida pela AstraZeneca.

O caso gera ainda mais polémica porque o Reino Unido ainda não exportou quaisquer doses de vacina para a União Europeia, ainda que duas distribuidoras façam parte do contrato assinado. Em sentido inverso, foram já muitas as doses que chegaram a solo britânico provenientes da Europa.

À agência Reuters, uma fonte da presidência francesa afirma que o verdadeiro destino das doses em causa ainda está em análise, acrescentando que, caso o produto fosse para exportação, essa mesma transferência pode vir a ser bloqueada.

Anteriormente, também a Austrália viu ser-lhe negada a exportação de vacinas, cuja partida também estava prevista de Itália.

Entretanto, e já esta quarta-feira, a Comissão Europeia decidiu reforçar o mecanismo de autorização de exportações de vacinas contra a covid-19 para fora da União Europeia, introduzindo os princípios da reciprocidade e da proporcionalidade e abrangendo 17 países anteriormente isentos.

Do Parlamento Europeu chegam já as primeiras reações. O deputado alemão Manfred Weber fala num caso que precisa de "explicações urgentemente".

O presidente da Catalent confirmou à Bloomberg a existência de uma operação, afirmando que as autoridades encontraram "tudo em ordem".

Mario Gargiulo afirma que a empresa que preside não tem conhecimento de qual o destino das doses que armazena, limitando-se a enviá-las para a sede da AstraZeneca na Bélgica, que daí faz a distribuição. A partir daí, não se sabe ainda ao certo qual o destino das vacinas.

António Guimarães