A organização Amnistia Internacional disse esta quinta-feira ter recolhido testemunhos de racismo em ações de resgate de civis durante o ataque de rebeldes a Palma, norte de Moçambique, após entrevistas a 11 sobreviventes.

Testemunhas falaram-nos de discriminação racial nas decisões sobre quem retirar do hotel Amarula", onde estavam refugiadas 220 pessoas, disse Deprose Muchena, diretor regional da AI para a África Oriental e Austral, num comunicado da organização acerca do ataque à vila junto aos projetos de gás, ocorrido a 24 de março.

Do total "cerca de 200 eram cidadãos negros e 20 eram empreiteiros brancos", sendo que estes últimos "tiveram prioridade para transferência à frente dos negros locais, num testemunho perturbador que aponta para racismo flagrante", sublinhou a AI.

A total falta de coordenação entre as forças de segurança de Moçambique e o Dyck Advisory Group (DAG, segurança privada) resultou em evacuações racistas que devem ser investigadas a fundo", acrescentou.

Numa reunião mantida na sexta-feira com a AI, o ministro da Defesa moçambicano disse "apenas poder falar pelas suas forças" e rejeitou qualquer atitude de racismo, detalhou ainda o comunicado.

Diz a AI que, consoante a cor da pele, houve empreiteiros estrangeiros que tiveram prioridade para ser transportados de helicóptero para local seguro, deixando para trás cidadãos moçambicanos que tiveram de fugir por terra, numa escolha atribuída por testemunhas ao gerente do hotel e à DAG.

Foi ainda descrito que o dono do hotel salvou dois cães pastores-alemães de helicóptero, à frente de outras pessoas.

Apesar de inúmeros ataques nos anos anteriores na região, "esta foi a primeira vez que houve uma missão de resgate e foi apenas quando empreiteiros brancos foram considerados em risco", concluiu.

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 714.000 deslocados de acordo com o Governo moçambicano.

Um ataque a Palma, junto ao projeto de gás em construção, a 24 de março provocou dezenas de mortos e feridos, sem balanço oficial anunciado.

As autoridades moçambicanas anunciaram controlar a vila, mas o ataque levou a petrolífera Total a abandonar o recinto do empreendimento que tinha início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

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